quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sérgio Lazzarini: "O Estado não saiu da economia"

ENTREVISTA REVISTA ÉPOCA - SÉRGIO LAZZARINI*

Desde a primeira privatização, no começo dos anos 90, 165 empresas estatais foram vendidas e geraram uma receita de US$ 87 bilhões para o Estado brasileiro. Um observador desavisado poderia ter a impressão de que o governo abandonava a economia ao capital estrangeiro e às forças do livre mercado. Duas décadas depois, o economista Sérgio Lazzarini diz que nada poderia estar mais distante da realidade. Ele pesquisou a composição acionária de 804 empresas brasileiras entre 1996 e 2009 e mapeou as relações entre elas. Montou uma espécie de rede social dos sócios das empresas. E concluiu que aqueles com mais contatos na rede de proprietários eram braços do Estado. Um exemplo é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em 1996, ele estava no capital de 30 empresas. No ano passado, em 90. O Estado não apenas permaneceu no centro nervoso econômico, mas conseguiu se irradiar em consórcios e dirigir, em certa medida, os investimentos privados. Lazzarini batizou essa dinâmica de “capitalismo de laços”.

ÉPOCA – O senhor diz que imaginava que o empresariado brasileiro tivesse sofrido transformações após o processo de liberalização, com menor participação do Estado. Sua pesquisa derrubou essa impressão?
Sérgio Lazzarini – O que houve no Brasil foi uma diminuição da participação direta do governo nas empresas. Se compararmos com os anos 70, houve mudança. Não há tantas estatais. Novos investidores, alguns estrangeiros, entraram. Mas não são eles que têm o poder. A pesquisa mostra que o poder de articulação é maior quanto mais enfronhado nessas redes de contato. Não se trata de dominar um setor, mas de estar disseminado, tendo mais contato com outros proprietários.

ÉPOCA – O senhor fala em “panelinhas”. Isso significa que, ao contrário do que se esperava com as privatizações, continua a existir algum tipo de monopólio?
Lazzarini – Alguns setores em que havia monopólio foram liberalizados, como a extração de petróleo. Mas criou-se esse modelo de consórcio, em que as pessoas se associam. Quando três empresas se associam, três a menos concorrem para disputar uma concessão, um leilão. Permite-se certa cooperação, que pode ser boa para diluir riscos, juntar capital – algo escasso no Brasil. Mas há potenciais problemas. Há atores que se irradiam em vários grupos. São esses que têm mais poder de articulação. Desde o começo das privatizações, houve um aumento no papel de atores ligados direta ou indiretamente ao governo, notadamente o BNDES e os fundos de pensão das estatais. Isso acaba tendo implicações nas próprias movimentações corporativas. Na fusão entre Sadia e Perdigão, foi a Previ (o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil), que tinha participação nas duas, que arquitetou a junção.

ÉPOCA – Qual é o problema nisso tudo?
Lazzarini – O ruim é não haver critério. Ninguém diz como a sociedade vai ganhar com a participação forte do Estado nesses negócios. Até hoje, não recebi uma explicação convincente de por que se alocou tanto dinheiro no setor frigorífico. Falam em criar um campeão nacional, para exportar. Mas qual a vantagem? O que isso adiciona de empregos locais? Não sei. É preciso mais transparência. Se alocamos X para a Friboi, deixamos de alocar X para um projeto de prisão, de saneamento, de escola. Ninguém deu dinheiro para a Friboi, o dinheiro está investido. Há quem diga que é lucrativo. O governo não tem de ver o que é lucrativo, mas o que é prioritário socialmente.

ÉPOCA – Os donos do poder após as privatizações continuam os mesmos?
Lazzarini – São os velhos donos. O governo saiu de uma participação mais direta para uma participação indireta. A própria Vale, privatizada, tem sofrido pressão política via relações societárias com fundos de pensão.

ÉPOCA – O capitalismo brasileiro depende dos fundos de pensão?
Lazzarini – O capitalismo brasileiro, que chamo de “capitalismo de laços”, tem duas características principais. A primeira são as aglomerações. Um conjunto de empresas, como Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, o grupo La Fonte (do empresário Carlos Jereissati), forma consórcios. A segunda é que a ponte entre esses grupos é feita por atores governamentais: BNDES, Previ, Petros, Funcef. O processo de privatizações trouxe ganho de eficiência em alguns setores. Mas o modelo escolhido para fazer as privatizações, desde a Usiminas, em 1991, é esse modelo de juntar pessoas e articular atores governamentais.

ÉPOCA – Se a ideia de privatizar é tirar o Estado do mercado, por que os fundos e o BNDES participaram do processo?
Lazzarini – Quem fez as concessões e as privatizações diz que era necessário aglomerar, senão os empresários não teriam capital para bancar as aquisições. E os fundos e o BNDES eram uma forma de entrar com dinheiro e tornar a participação nos leilões mais atraente. No limite, o Estado emprestava dinheiro para que esses empresários comprassem as empresas do próprio Estado. Isso não é necessariamente um problema. O problema é que não se estabeleceu um isolamento político do processo. Então, a toda hora, o governo fica incitando esse pessoal a entrar em consórcios. Estamos vendo isso com Belo Monte e o trem-bala.

ÉPOCA – Se o governo empresta dinheiro e faz pressão para a compra das estatais, o processo de privatização não se concluiu?
Lazzarini – É uma privatização híbrida, o Estado mantém seu pezinho ali. O processo de privatização não muda a matriz institucional, as regras do jogo do país. As relações que já existem continuam.

ÉPOCA – O que o senhor sugere?
Lazzarini – Um choque institucional para reduzir os custos de intermediação de empresas. No Brasil se demora para abrir empresa, há pouco crédito para o setor privado, pouco se fez para criar um mercado privado de dívida de longo prazo. A própria intromissão forte do BNDES reduz isso, dando recursos a empresas que poderiam captar de outra forma. É preciso ficar mais fácil para um novo empreendedor despontar sozinho, sem recorrer ao Estado. Não acredito que essa feição de capitalismo de laços vá acabar. E talvez nem precise. Mas é preciso que esses laços se renovem mais rapidamente.

ÉPOCA – A abertura de capital das empresas em Bolsa não contribuiu para isso?
Lazzarini – A princípio, seria um caso de renovação. Mas, quando você vai olhar, isso não aconteceu. Houve uma entrada de investidores financeiros, mas eles não pegaram o controle das empresas. O governo participou de vários eventos de abertura de capital. Surge um Eike Batista, por exemplo, com novas empresas, mas rapidamente ele é visto falando que o BNDES é o melhor banco do mundo...

ÉPOCA – De um governo para outro, mudam os atores desse capitalismo de laços?
Lazzarini – Não. Em geral, eles permanecem os mesmos. Não é uma questão partidária, ideológica, mas estrutural.

ÉPOCA – Não houve então nenhuma ruptura entre os governos FHC e Lula?
Lazzarini – Não. Talvez, no Lula, essas iniciativas de concentração de empresas tenha aumentado um pouco, até porque foi para o BNDES o (economista) Luciano Coutinho, que tem muito essa cabeça de criar campeões nacionais, grandes empresas. Mas é um equívoco dizer que FHC é privatista e Lula estatizante. Não se pode dizer que um governo seja privatista quando a entidade que vai coordenar a privatização é um banco público e há um monte de atores governamentais no capital das empresas. A participação do governo caiu diretamente, mas se irradiou por outras empresas.

*Economista, de 39 anos, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). Pós-doutorado em Harvard, Estados Unidos, sobre as redes empresariais do Brasil .

Nenhum comentário: