segunda-feira, 11 de outubro de 2010

COLUNA DO TIMM & ELEIÇÕES 2010 (resenha) : HAVERÁ CHORO E RANGER DE DENTES...

Por Paulo Timm

“Ninguém chega ao Rubicão para beber água”, diziam os romanos antigos, para explicar que Cesar não iria parar antes de chegar, triunfante, em Roma. Chegou, deu um golpe na República e tornou-se Imperador. Desde então, a expressão virou um dito popular significando que, pessoas determinadas, não param no meio do caminho. Pois assim são Dilma e Serra. Aliás, ninguém chega onde eles chegaram se não for determinado. Determinado a chegar até o fim.

Dilma é uma vocacionada. Enganam-se os que a definem como uma técnica, com alguns dotes intelectuais. É detentora de uma formação sólida, como boa mineira, e, se não fez suas titulações pós-superiores, passou pelos cursos de Mestrado e Doutorado. Já é muito”. Mas seu forte é política, embora nunca tenha conseguido afirmar qualquer liderança, que é o desejo profundo de todos quantos se voltam à atividade: “Duco non Ducor”, ter seguidores...Ela colocou sua juventude a prêmio, foi presa, torturada e não se “curou”. Continuou na militância política, de forma mais sutil, aperfeiçoando-se na arte da dissimulação, mas sem perder suas convicções .A Política é sua razão de viver e morrer e ela chegou, até por circunstâncias, a um patamar decisivo: Pode ser a primeira Presidente do Brasil. Vai fazer tudo para não perder essa parada. Deve estar exausta, nota-se no seu semblante, na sua fala entrecortada, na visível tensão expressa no andar. Mas resistirá! E , apoiada por Lula e , agora, dezenas de Senadores e Governadores do PT – não sei se os do PMDB se entreguem a tanto... – continuará sua luta para a Presidência. A escolha de Ciro Gomes, um pândego que inexplicavelmente ainda subsiste na política nacional, mal-educado, pretensioso e perigoso, para a Coordenação de Campanha, significa que vai haver “sangue”. Ciro adora polemizar, atirar pra todo o lado, ofender. É sua especialidade, na falta de uma alta educação que o credenciasse à ironia ou ao fino humor. Mas é um indicador de que a campanha vai mudar de rumo, vai esquentar e forçar a barra. Dilma, entretanto, embora de atitudes firmes, manterá a elevação de atitudes. Assim são os mineiros, senhores deste mistério de esconder por trás de uma aparência singela uma sabedoria aristocrática. Não por acaso, “Grande Sertão” de Guimarães fez das “gerais” um lugar no universo das letras.

Mas o que está por trás de Dilma?

Não apenas o Lula, seus êxitos no Governo. A Dilma, disse-o recentemente o insuspeito José Dirceu em Salvador, é o PT, muito mais PT do que Lula. E o que é o PT? Quem o controla? Para onde ele vai num eventual?

O PT é uma proposta partidária extemporânea, própria do início do século XX e que só veio à tona no Brasil pelo próprio atraso de uma esquerda congelada em suas convicções e isolamento, provocado pela ditadura. Um “Partido de Classe”, com forte apoio no movimento sindical, sem raízes na esquerda tradicional (Brizola, Prestes, Arraes), embora emprenhado por sobreviventes isolados do “combate”, marginalizados do processo político-institucional, extremamente radicalizados, como os remanescentes do trotskismo ou da dissidência comunista dos anos 60. E com grande apoio da Igreja, então sacudida pela emergente Teologia da Libertação. Mas, curiosamente, embora extemporâneo em conceito, o PT foi contemporâneo na forma, amoldando-se às exigências do respeito às tendências internas e sua acomodação, sempre sob a bandeira da construção de uma alternativa independente da “classe trabalhadora”. Isso seria – e foi – impensável em qualquer dos Partidos de esquerda existentes, inclusive o PDT, que o pretendia. Graças a isto e à forte capacidade de liderança do Lula o PT transformou-se no único Partido efetivamente reconhecido como tal, no país: um partido dos pobres, capaz de velar por eles e com um sentido ético da prática política. E assim chegou o PT com Lula ao Poder em 2003 e reforçou, com exceção da questão ética, sua imagem, embora transformando-se na prática num Partido de massas de inspiração reformista, muito próximo de qualquer outro de corte social-democrata, no mundo inteiro. Mas se avançou no abandono da proposta de Partido de Classe para a de Partido dos Pobres, abdicando da vocação revolucionária que a primeira sugeria, o PT perdeu, ao longo do mandato do Lula, não só sua consagração como eticamente inatacável. Sucumbiu à tendência de liquidar sua mais importante aquisição: o democratismo. Internamente, um após o outro, todos os que dissentiram, desde Airton Soares e Bete Mendes, que apoiaram Tancredo Neves na transição à Nova República, passando por Plinio Arruda Sampaio, até Heloísa Helena, mais recentemente. Acaudilhou-se à vontade do Líder. E , ironia da história, transformou-se no contrário do que se propunha ser na origem: um partido “populista”. O uso do Poder ajudou, ainda, a docilizar as contradições no seio da família...Vide mensalõe, mensalinhos e milhares de cargos em comissão, no rastro do “aparelhamento”. Externamente, o PT no Poder, ciente de seu papel histórico como exclusividade na construção de um país melhor para todos, passou à ofensiva e também acaudilhou as demais forças políticas do país, tanto à esquerda, como à direita. A tal ponto que fica a pergunta: Para que tantos deputados e senadores em apoio ao Governo se , rigorosamente, o programa do Governo, nada tem de revolucionário, podendo, aliás, ser subscrito por qualquer mente esclarecida do universo ideológico de qualquer parte do mundo. E aí, reside, pois o espectro de dúvidas sobre o que há por trás da Dilma: Interesses exclusivamente pessoais de permanência no poder por 20 (ou 30) anos, ou algo, tal como proclamam os ultra-direitistas, sempre à espreita do golpe comunista, um coringa invisível. Hegemonia gramsciana, enfim, não é caso de maioria parlamentar, mas capacidade de formular e conduzir um projeto de âmbito nacional de grande profundidade cultural, o que não se forja, por certo, nos grotões da miséria humana.

A verdade é que o PT de Dilma – ou com Dilma – não será o PT subordinado disciplinadamente à liderança de Lula. Nem ela é, ideológica, social e politicamente fruto do mesmo processo que deu origem à Lula, nem tem o seu potencial de liderança para comandar o barco.

Serra é diferente. Tem profundo espírito público e inequívoca vocação para o exercício da liderança. Não era qualquer um que virava Presidente da combativa UNE, antes de 64. E poucos falaram no histórico Comício de Central do Brasil, no dia 13 de março daquele ano, ao lado do Presidente Goulart, em defesa das “Reformas de Base”. Ele foi um deles. Bastaria isso para provar sua potencialidade de liderança. Mas Serra é mais introspectivo, é um notívago incurável. Passa noites e noites acordado, estudando, trabalhando. Tem uma resistência impressionante. É outro determinado. Mas portador de um tipo de enfrentamentos direto, de varejo, não de confrontos ideológicos ou pessoais de profundidade. É isso que o faz mais vocacionado para a liderança do que para a Política, em geral. Jamais seria um assessor... É um intelectual moderno, de idéias progressistas, mas nunca foi , nem comunista, nem marxista. Tem horror ao radicalismo teórico. Mas é capaz de se engalfinhar numa contenda menor, até insignificante, com o açougueiro da esquina que lhe roubou no peso, com o estudante que saiu da sala antes do sinal, com diatribes gratuitas que lhe sejam atiradas por Ciro Gomes. Veja-se, por exemplo, a estocada que deu em Marina, depois de dezenas de conselhos dos assessores para que não o fizesse, no último debate na televisão. Serra é realmente o que pensa, o que diz, o que parece ser e o digo sem nenhum sentido pejorativo: um suburbano. Um fruto de São Paulo, do qual custa, inclusive, a se desprender.

E o que está por trás de Serra: O PSDB, a “Era FHC”.

O PSDB, ao contrário do PT, embora pretendendo-se, na origem, uma dissidência à esquerda do frentão PMDB ( e arrastando consigo consagrados esquerdistas como Euclides Scalco(PR) e João Gilberto (RS), para não falar do próprio Mário Covas e FHC em São Paulo, jamais alimentou “ilusões de classe” ou revolucionárias. Nasceu com o nome e uma vocação reformista de tipo social-democrata, apostando nas “rupturas pactuadas através da compactação institucional , só lamentando que o Brizola já houvesse ocupado esse espaço como representante brasileiro na II Internacional, que até hoje reúne os Partidos do mundo inteiro sob essa bandeira. Era, neste sentido, um partido mais moderno que o PT , adequado às mudanças estruturais do capitalismo no século XX e às frustrações inequívocas do “socialismo real” capitaneado doutrinariamente pelo marxismo ortodoxo sob a égide, ou da União Soviética, ou da China, ou de Cuba. A lacuna do PSDB, nesta origem, não era conceitual. Foi política: Tratava-se de um Partido de quadros oriundos , fundamentalmente, do Congresso Nacional. Não tinha articulação com Movimentos Sociais, com Centrais Sindicais, com as Igrejas . Era a própria idéia em movimento, encarnada no Príncipe da Sociologia, Fernando Henrique Cardoso. No fundo, uma ficção, sobre a qual poucos apostariam como efetiva alternativa de poder a curto prazo. À mesma época Brizola, com o PDT, Governador do Rio Janeiro, capitaneava a preferência dos eleitores nas pesquisa à Presidência, com um Partido, com muitas lacunas mas inequívoca vocação para o poder. Lula, seguindo de perto, fortalecia suas articulações com o movimento social e se fortalecia na luta pelas reposições salariais, numa conjuntura fortemente inflacionária, que lhe capitalizava dividendos galopantes. Daí poder-se dizer que se o pai do PT foi o movimento sindical, a mãe que o criou foi a hiperinflação...O que esperar, pois, de um pífio PSDB, ilustrado? Seus líderes eram “Vagas Estrelas de Ursa”, título de um belo filme dos anos 60.

E foi o que se viu nas primeiras eleições presidenciais de 1989: Despontou o Collor, elegendo-se, seguindo-se de Lula e Brizola. Covas, do PSDB e Ulysses, do PDDB sumiram...O primeiro refugiou-se em São Paulo e daí dá alento até hoje às vitórias do Partido.

Mas o tragicômico Collor duraria pouco. Caiu de podre em 1992. Ele era a fraude mascarada de energia e juventude do “ancien regime”. E com isso abriu um fosso nas lideranças conservadores do país, já desgastadas pela sua conivência com os militares defenestrados , abrindo um inédito espaço para uma renovação. Aí o movimento oportuno e inteligente , de Fernando Henrique Cardoso, então emergente figura de um Governo tampão , oferecendo-lhes uma alternativa, sob seu comando, à testa do PSDB ,sob a bandeira de um “renascimento globalizado”, com enlaces internacionais em Tony Blair, na Inglaterra e Bill Clinton, nos EUA. Deu certo. Conseguiu golpear mortalmente a inflação com o apoio de uma assessoria econômica de primeira linha, chamada ao primeiro escalão do Governo, fez algumas reformas fundamentais à reorganização econômica do pais e arrastou, com um ímpeto inusitado, o eleitorado brasileiro que lhe deu as vitórias de 1994 e 1998. Estava, com isso, renovada e dita “direita” no Brasil, agora com um ideário avançado, novas articulações internacionais e novos personagens. Incapazes de ganhar os movimentos sociais mais organizados, fundamentalmente corporativistas e propensos a um fundametalismo “de classe” ou “doutrinário” , e que persistiam em sua “guerrilha parlamentar “ contra o Plano Real, contra a “Lei de Responsabilidade Fiscal”, contra as “Privatizações”, (,à frente dos quaisl se colocavam o PT, cada vez mais fortalecido sob o comando de Lula e o PDT, de Brizola, debilitado pela falta de vínculos orgânicos com estes movimentos e maculado pela aproximação com Collor em seus últimos dias) Fernando Henrique e o PSDB se firmam, então, hegemonicamente no cenário nacional. Arrastam consigo neste processo, não só a direita em frangalhos, mas grande parte dos comunistas reciclados em torno de Roberto Freire no seu novo PPS e uma quantidade considerável de quadros da classe média.

Serra, nesse processo, filiado ao PSDB, ressente-se dos excessos de ilustração do Partido, contorce-se em amuos contra uma política econômica excessivamente monetarista de Malan e Gustavo Franco, que sempre combateu, mas submete-se, (in?)conformado, à liderança do Presidente FHC, embora consentindo na necessidade da Reforma do Estado, que passava por Privatizações suspeitas e pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Com isso, acumulou forças, tanto fora como dentro do Partido, conseguindo, ao final da Era FHC, vir a ser seu candidato à sucessão, até sem grande entusiasmo do Presidente. Perdeu a eleição mas ganhou São Paulo, tornando-se Governador conceituado, depois da passagem pela Prefeitura da cidade.

Por trás de Serra, portanto, habita o espectro de um Partido moderno, de quadros, de inspiração e fontes social-democratas, com fortes vínculos internacionais com forças correspondentes no mundo inteiro, mas que, na prática das alianças internas e no contexto dos anos 90 -quando o mundo assistiu, perplexo à derrocada do socialismo real tanto na URSS como na China, quando esta para não esfacelar-se abre-se para a globalização -, ocupou um lugar “à direita” do PT e do PDT. Não só pelas origens e pela natureza do PSDB , mas também, pela suas alianças no mundo ocidental e pela sua estreita convivência com o liberalismo e neo-liberalismo, o PSDB acabou consagrando-se como um partido das liberdades públicas, de mercado e privadas, provocando mais horror ainda a uma velha tradição latinoamericana que vê, nestes valores, o braço longo da dominação colonial e imperialista. Muitos vêm nesse deslocamento o abandono definitivo das raízes socializantes do PSDB e sua reconversão inelutável ao conservadorismo. Ainda nessa hipótese, seria mais fácil ver Serra Presidente da República, recolocando o seu Partido nas suas fontes, do que imaginar Dilma Presidente reconduzindo o PT à velha inteireza ética e praxis democrática, estendida a todo universo político, que o credenciasse a reproduzir, entre nós, o Partido Social Democrático da Suécia, o qual, mesmo tendo permanecido 43 anos à frente do Governo sueco, jamais levantou suspeitas de segundas intenções.

Dilma e Serra, portanto, estão no limite de suas carreiras. Qualquer um deles, se perder, encerrará a carreira. Estão no último degrau do Olimpo , que no Brasil atente pelo nome “genérico” de Brasília. Eles estão estudando o terreno para entrar com muita força e argumento em campo. E , com isso, a campanha vai pegar fogo. Eles nada têm a perder. Só a ganhar. São rigorosamente, ambos, líderes que, não obstante, diferentes em opiniões e trajetórias, ao longo de suas respectivas vidas, pertencem à mesma geração, à mesma matriz ideológica social-democrata, às mesmas limitações e potencialidades do nosso tempo. Os dois serão demonizados , cada qual pelos campos adversários correspondentes, os quais farão de seu escolhido, um santo. Aos eleitores, a decisão. À grande parte deles , com posições já definidas caberá um último olhar sobre o processo. Eles somam os 46% da Dilma mais os 33# do Serra. Aos restantes, ficará a decisão . São os 20% que votaram em Marina Silva e , agora, terão que optar por um ou outro. E há, ainda, além deles, os “evasivos” do primeiro turno, em torno de 25% do total -não dos que votaram mas do total mesmo de 135 milhões de eleitores brasileiros -, os quais, ou simplesmente não apareceram para votar, ou votaram em branco ou nulo.

Quem viver verá, dia 31 de outubro quem será o Presidente do Brasil 2010-2014. E, creiam-me, não acredito que haja maiores mudanças do que aquelas que estão embutidas tanto no notável processo histórico de desenvolvimento do Brasil, quanto na maturidade de suas instituições, estas, aliás, mais sólidas até, do que as alardeadas pelo desempenho recente da nossa economia.

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