terça-feira, 21 de setembro de 2010

O MERCADO DA ADVOCACIA NO BRASIL DO SÉC. XXI

Luciano Benetti Timm*

Publicado no Jornal ZERO HORA em 17/09/2010 - p. 25

O Brasil já foi considerado o país dos bacharéis. A alusão diz respeito ao século XIX, quando as primeiras faculdades de ensino superior a serem fundadas no país (São Paulo e Olinda) foram as de Direito. A idéia aquela época era formar o estamento burocrático do país recém formado. E no século XIX o sonho daquele estudante de Direito era se tornar delegado, juiz e depois deputado. O advogado era o rábula forense.

De muito pobre no século XIX, o país se industrializou e cresceu vertiginosamente no século XX, mas a profissão jurídica continuou bastante presa às carreiras públicas. A advocacia era tipicamente a criminal e a litigiosa.

Com a consolidação da democracia, as privatizações no final do século XX trouxeram uma novidade. A função do advogado se deslocou da atividade litigiosa para atividade consultiva. Nesse sentido, as fusões e aquisições vieram acompanhadas de uma necessidade de habilidades não usuais até então a advogados: negociação, estruturação de garantias financeiras, análise de riscos, ou seja, atividades longe do fórum.

Os escritórios de advocacia aumentaram de tamanho e viraram grandes empresas. A área contenciosa diminuiu de importância.

A partir desse momento, o inglês passou a ser língua dos negócios, o direito norte-americano a referência a ser perseguida e o conhecimento básico de conceitos de contabilidade, administração e economia passou a ser tão ou mais importante que aqueles de filosofia do jurista tradicional.

Veio com isso a necessidade de estudar no exterior e ganhar uma exposição internacional, fundamentalmente nos países anglo-americanos (de sistema legal de common law).

Esse passou a ser momento em que o desejo dos estudantes de Direito se dirigiu não mais às carreiras públicas (associadas a algo lento, burocrático e pouco gratificante), mas aos grandes escritórios de advocacia.

Paralelamente a esse fenômeno, o judiciário brasileiro se democratizou a abriu suas portas ao cidadão, sendo invadido por uma enxurrada de processos que o sufocou. Nenhuma empresa pensa seriamente ter suas disputas resolvidas nessa realidade massificada. E abre-se o caminho para a arbitragem.

Matérias de revistas especializadas começaram a sugerir que os melhores alunos com oportunidades múltiplas preferiam ser advogados, correr riscos e faturar alto.

O Brasil do século XXI está potencializando isso.

Tem-se notícia de escritórios norte-americanos “invadindo” o Brasil em 2010 em busca de oportunidades nas áreas de infra-estrutura, energia, etc.

Agora os grandes escritórios brasileiros terão de concorrer com os estrangeiros. Nossos acadêmicos precisam ser treinados a pensar economicamente, em soluções ágeis e em inglês.

Não são apenas as faculdades de engenharia e computação que devem se preparar para a nova realidade do Brasil.

*Luciano Benetti Timm – Pós Doutor em Direito na Universidade da Califórnia (Berkeley), Advogado e Professor do Unisinos Law

Nenhum comentário: