segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Socorro na crise ajudou poucos grupos

Petrobras e 13 empresas privadas ficaram com quase todo o dinheiro de linha do BNDES para capital de giro
Maior parte dos recursos do programa só saiu quando o crédito e a economia do país já estavam se recuperando


RICARDO BALTHAZAR (FSP)
DE SÃO PAULO

A Petrobras e 13 grupos privados ficaram com quase todo o dinheiro liberado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para uma linha especial de crédito criada para socorrer empresas em apuros no auge da crise financeira global, há dois anos.
O programa foi anunciado no fim de 2008, quando até empresas de primeira linha tinham dificuldades para obter crédito na praça. Mas o dinheiro demorou para sair e a maior parte só foi liberada a partir do segundo semestre do ano passado, quando o pior da crise tinha passado.

O Programa Especial de Crédito (PEC), como o banco batizou a iniciativa, prometia R$ 6 bilhões para capital de giro, o dinheiro que as empresas usam para financiar suas atividades no dia-a-dia.
As condições do programa foram desenhadas com a intenção de beneficiar um número maior de empresas, limitando a R$ 50 milhões o valor dos empréstimos que cada uma poderia tomar.
Mas as regras foram revistas dois meses após o lançamento do programa. O limite foi ampliado para R$ 200 milhões por empresa, as taxas de juros foram reduzidas e o prazo para pagamento dos empréstimos foi triplicado.

O primeiro a aproveitar a oportunidade foi o grupo Votorantim, que conseguiu sozinho R$ 800 milhões em junho de 2009. O banco fez empréstimos para quatro empresas diferentes do conglomerado e os contratos foram assinados no mesmo dia.
O resto do dinheiro só saiu quando os sinais de que a economia brasileira estava em recuperação já eram evidentes. Depois do Votorantim, os mais favorecidos foram o grupo Ultra, que conseguiu R$ 612 milhões, a Camargo Corrêa e a operadora de telefonia celular TIM, cada uma com R$ 400 milhões.

INÉRCIA

O BNDES atribuiu a dificuldades burocráticas sua falta de agilidade na liberação dos recursos do programa. "Tem uma inércia temporal nesse negócio", disse o diretor de planejamento do banco, João Carlos Ferraz.

O economista Marcelo Miterhof, assessor da presidência do BNDES, disse que a intervenção do banco era necessária mesmo quando o cenário econômico parecia mais tranquilo, porque alguns grupos beneficiados pelo programa continuavam enfrentando dificuldades.
O prazo para acessar a linha especial do BNDES acabou no fim de 2009, mas empresas que fizeram seus pedidos por último estão sendo atendidas neste ano. Somadas as operações divulgadas pela instituição, foram liberados R$ 4,7 bilhões até aqui.

O BNDES cobrou nos empréstimos uma taxa de juros de 14,5% ao ano, maior que as taxas cobradas nas operações tradicionais do banco, que financia investimentos como compras de máquinas e construção de fábricas.

Para os empresários que tiveram acesso ao programa, foi um bom negócio mesmo assim. Ainda que eles não precisassem do dinheiro, as taxas eram muito inferiores às cobradas por bancos comerciais na mesma época.

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