quinta-feira, 13 de maio de 2010

O novo paradigma da economia

Por Nuno Garoupa

No contexto da reforma de Bolonha, uma conhecida universidade espanhola pondera alterar profundamente o plano curricular das suas licenciaturas (primeiro ciclo) de Economia e Administração de Empresas.

No contexto da reforma de Bolonha, uma conhecida universidade espanhola pondera alterar profundamente o plano curricular das suas licenciaturas (primeiro ciclo) de Economia e Administração de Empresas. Querem eliminar a microeconomia neoclássica e introduzir economia política, sociologia económica, e ética e economia. Semelhante reforma curricular é justificada pelo seus proponentes com a mudança de paradigma na economia e a derrota das teses neoliberais na sequência da actual crise dos mercados financeiros transformada em crise económica. Questionados sobre as saídas profissionais, os apoiantes deste novo projecto pretendem formar economistas e gestores para empresas com sentido de responsabilidade social, ONG e sindicatos. Vem esta história na sequência do artigo publicado por cinco economistas críticos do actual paradigma da Economia e o subsequente debate que se gerou, incluindo um polémico artigo de Vasco Pulido Valente. Independentemente do debate epistemológico que se possa fazer, o desafio a que os economistas críticos têm de responder é desenvolver os tais planos curriculares alternativos e que respondem ao que eles entendem ser as exigências da sociedade actual. Dada a actual oferta de licenciaturas e mestrados (primeiro e segundo ciclos) em Economia e Gestão, existe espaço mais que suficiente para desenvolver esses projectos alternativos em Portugal.

No fundo, muitos dos economistas críticos sempre tiveram um problema em aceitar a "americanização" do ensino da Economia e da Gestão em Portugal iniciada no final dos anos 70. Mas essa mudança fez-se pelas forças de mercado resultante da concorrência entre as faculdade de Economia, e não por nenhuma imposição central. A peculiar autonomia universitária portuguesa (bem distinta do centralismo universitário espanhol) permitiu o desenvolvimento de projectos de ensino distintos em concorrência aberta sem grandes interferências e distorções impostas pelo governo.

Na verdade, o modelo inicialmente adoptado por algumas faculdade de Economia, como a Nova ou a Católica, com um corpo docente maioritariamente formado nos Estados Unidos e no Reino Unido, não foi seguido por outras escolas que preferiram então manter paradigma alternativos. Foi o êxito das escolas convertidas ao modelo neoclássico em termos de recrutamento de alunos de qualidade, mercado de trabalho, investigação, captação de fundos próprios e projecção internacional que levou outras escolas a abandonar modelos alternativos no final dos anos 80 e nos anos 90 (mas não antes). Ninguém obrigou ninguém a abandonar outros paradigmas para aderir ao paradigma neoclássico. Se hoje o ensino da Economia e Gestão em Portugal é bastante homogéneo (o que, por exemplo, não acontece no Brasil), isso resultou da concorrência aberta entre as escolas, e não de nenhuma tese conspirativa ou imposição governamental.

É neste contexto que quem acredita em modelos alternativos tem a sua oportunidade. Se, na verdade, a actual crise dos mercados financeiros mostra a falência do modelo neoclássico, então a primeira escola de economia ou gestão que adopte o modelo crítico terá um grande êxito, tal como tiveram aquelas que primeiro adoptaram o paradigma neoclássico no final dos anos 70. Esperemos pois para breve a primeira escola de Economia e Gestão portuguesa que siga as pisadas da congénere espanhola.

Pessoalmente não estou convencido da falência do actual paradigma neoclássico. Não acredito que o mercado de trabalho (as empresas), o recrutamento de alunos de qualidade, ou a projecção internacional do corpo docente se vejam beneficiados por modelos alternativos. Parece-me claro que os projectos alternativos em Economia e Gestão têm riscos elevados porque estão fundamentalmente errados e desfasados da realidade. Mas esses riscos devem ser assumidos por quem acredita que por aí passa o futuro. O que não podem querer os economistas críticos é diversificar esses riscos forçando a que todas as escolas de economia abandonem o paradigma neoclássico ou exigir recursos públicos adicionais para financiar a experimentação metodológica.

Nenhum comentário: