quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

John Maynard Keynes: o dano que um economista defunto ainda causa

por Richard M. Ebeling



Há setenta e dois anos, em 4 de fevereiro de 1936, o economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946) publicou o que logo se tornou sua obra mais famosa, Teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Poucos livros tiveram, em tão pouco tempo, tanta influência, gerando um impacto tão destrutivo sobre as políticas públicas. O que Keynes conseguiu fazer foi oferecer uma lógica para aquilo que os governos mais gostam de fazer: gastar dinheiro e atender a interesses particulares.


No processo, Keynes ajudou a enfraquecer três daqueles que tinham sido ingredientes institucionais essenciais de uma economia de livre mercado: o padrão ouro, orçamentos governamentais equilibrados, e mercados abertos competitivos. No lugar deles, Keynes deixou a inflação do papel-moeda, déficit governamental, e mais intervenções políticas no mercado.


Seria exagero, claro, afirmar que sem Keynes e a revolução keynesiana a
inflação, o déficit advindo de gastos e o intervencionismo não teriam surgido. Por décadas antes da publicação do livro de Keynes, o clima político e ideológico já pendia para mais e mais envolvimento governamental em questões sociais e econômicas, por causa da crescente influência de idéias coletivistas entre intelectuais e planejadores de políticas. Mas antes da publicação da Teoria geral, muitos dos proponentes destas políticas coletivistas ainda não tinham tido contato com o corpus de pensamento econômico que defendia que, de modo geral, o melhor caminho para o governo passava por ficar longe do mercado, manter uma moeda estável lastreada em ouro, e restringir suas políticas fiscais e de gastos.

Os economistas clássicos dos séculos XVIII e XIX haviam demonstrado convincentemente que a intervenção governamental impedia o bom funcionamento do mercado. Eles elaboraram um corpus de teoria econômica que mostrava claramente que os governos não possuem nem o conhecimento nem a capacidade de dirigir a economia. A liberdade e a prosperidade estão mais garantidas quando o governo se limita, geralmente, a proteger as vidas e propriedades das pessoas, e as forças competitivas de oferta e procura produzem os incentivos e a coordenação necessários às atividades delas. 

Durante as guerras napoleônicas do início do século XIX, muitos países europeus tiveram inflações altas, já que os governos usavam as máquinas impressoras para financiar os custos de guerra. A lição que os economistas clássicos aprenderam foi que a mão do governo tinha de ser tirada da manivela da máquina impressora para que se mantivesse a estabilidade monetária. A melhor maneira de fazer isso era ancorar a moeda nacional a uma commodity, como o ouro, exigir que os bancos trocassem suas notas por ouro a uma taxa fixa quando isso lhes fosse pedido, e limitar quaisquer aumentos na quantidade das notas em circulação a novos depósitos de ouro feitos nos bancos pelos depositantes.

Eles também concluíram que o déficit em gastos era uma forma perigosa de financiar programas governamentais, permitindo aos governos criar a ilusão de poder gastar sem impor um custo à sociedade por meio de mais impostos; os governos poderiam tomar dinheiro emprestado e gastá-lo hoje, e adiar o custo em impostos até algum futuro em que os empréstimos tivessem de ser pagos. Os economistas clássicos queriam orçamentos anuais equilibrados, permitindo que o eleitorado pudesse ver mais claramente os custos dos gastos do governo. Se uma emergência nacional, como uma guerra, forçasse o governo a tomar empréstimos, então quando a crise acabasse o governo deveria aumentar o orçamento para pagar a dívidas.

Essas eram consideradas as políticas verdadeiras e experimentadas de uma sociedade saudável. E essas foram as políticas que Keynes se esforçou para destruir nas páginas da Teoria geral. Ele afirmava que uma economia de mercado era intrinsecamente instável, suscetível a devaneios irracionais de otimismo e pessimismo dos investidores, que resultavam em vastas e imprevisíveis flutuações de produção, emprego e preços. Somente o governo, acreditava, poderia ter uma visão de longo prazo e manter a estabilidade da economia por meio de déficits para estimulá-la durante as depressões e superávits para segurá-la durante os booms inflacionários. Atacava, portanto, a idéia de orçamentos equilibrados; em seu lugar, o governo deveria equilibrar seus orçamentos ao longo do "ciclo de negócios".

Para tanto, dizia Keynes, os governos não podiam ficar limitados pela "bárbara velharia" do padrão-ouro. Sábios políticos, guiados por brilhantes economistas como ele mesmo, necessitavam de flexibilidade para aumentar a oferta de dinheiro, manipular as taxas de juros, e mudar as taxas cambiais. Eles precisavam desse poder para gerar qualquer quantidade de gastos necessários para empregar as pessoas em projetos públicos e investimentos privados estimulados pelo governo. Limitar os aumentos de oferta de dinheiro à quantidade de ouro seria um impedimento, insistia Keynes.

Keynes acreditava não só que a economia de mercado não conseguiria manter sua própria estabilidade como ainda acreditava seria indesejável deixar o mercado funcionar. Ele disse uma vez que deixar que o mercado determinasse os preços e salários para equilibrar a oferta e a procura significa submeter a sociedade a uma "força econômica" cruel e injusta. Ao contrário, ele queria que os salários e preços fossem fixados politicamente na base "daquilo que é 'justo' e 'razoável' entre as classes [sociais]".

O nível de salários imposto pelos sindicatos, por exemplo, deveria ser considerado sacrossanto, mesmo que muitos trabalhadores ficassem de fora do mercado porque o nível era mais alto do que o valor estimado por seus potenciais empregadores. O governo, em vez disso, deveria imprimir dinheiro, sustentar déficits, e elevar os preços a qualquer nível necessário para que empregadores e trabalhadores tivessem lucros. Em outras palavras, a perpétua inflação de preços seria o meio de garantir "pleno emprego" diante de sindicatos agressivos.

 

Gastos sem freios

Além disso, quando a regra do orçamento equilibrado foi derrubada, não havia mais qualquer freio aos gastos governamentais. Como James M. Buchanan e Richard E. Wagner observaram em Democracy in Deficit ["A democracia em déficit"] (1977), uma vez que o governo seja desobrigado de fazer os pagadores de impostos pagar imediata e diretamente por aquilo que gasta, qualquer grupo de interesse pode pedir aos políticos que lhes dêeem o que querem. Os políticos, desejosos de votos e contribuições de campanha, alegremente se ofecerem para satisfazer a gula dos grupos favorecidos. Ao mesmo tempo, os pagadores de impostos tornam-se presas fáceis da ilusão de que o governo pode dar algo em troca de nada para qualquer um a virtualmente custo nenhum.

De fato, hoje os políticos podem brincar de oferecer mais e mais dinheiro a interesses particulares enquanto diminuem os impostos. O governo simplesmente preenche o rombo tomando empréstimos, impondo uma dívida maior às gerações futuras. Ou os impostos terão de subir nos anos vindouros, ou o governo vai usar a máquina impressora para pagar o que deve, e o tempo todo dirá que isso está sendo feito para gerar a "prosperidade nacional" e financiar programas "socialmente necessários" do estado de bem-estar social.

Numa das passagens mais famosas da Teoria geral, Keynes disse que "as idéias dos economistas e filósofos políticos, estejam eles certos ou errados, têm mais poder do que se costuma imaginar. Na verdade, quase nada além delas governa o mundo. Os homens práticos, que se crêem livres de influências intelectuais, freqüentemente são os escravos de economistas defuntos e escrevinhadores acadêmicos. Loucos no poder, que ouvem vozes no espaço, destilam sua loucura de algum escrevinhador acadêmico de alguns anos antes".

Setenta anos depois da publicação da Teoria geral, muitos homens práticos de negócios e políticos no poder continuam escravos de economistas defuntos e escrevinhadores acadêmicos. A tragédia do nosso tempo é que, entre as vozes que eles ainda ouvem no espaço enquanto gerenciam corrupta e porcamente tudo que tocam, está a de John Maynard Keynes.


Agradecimento ao Professor Bruno Salama (FGV-ILACDE) pelo envio do texto.

5 comentários:

Anônimo disse...

Texto de grande valor reflexivo, entretanto a utilização de adjetivos pejorativos de modo genérico em relação a outras correntes, no modesto ver deste colega pode comprometer a dialética que se faz diante das idéias para o inevitável crescimento intelectual.
Assim, minha contribuição vai no sentido de sempre atacar as idéias mas nunca os personagens dela, pois como a ecomia é cíclica, as pessoas também, desta forma um convite para o debate parece mais sugestivo...
No mais, parabéns pelo artigo..

Luciano Timm disse...

Tens razão André, entretanto, o que seriam dos professores e articulistas sem um pouco de sarcasmo...

vilaneide paulino araujo disse...

Acho muito inteerssante essa teoria
apesar de pouco conhecimento.

Eric Hamers disse...

Concordo em alguns pontos, porém, acho que o professor confundiu alguns pontos da teoria de Keynes e o que é feito atualmente no mercado.

Eric Hamers disse...

Concordo em alguns pontos, porém, acho que o professor confundiu alguns pontos da teoria de Keynes e o que é feito atualmente no mercado.