sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Os males são agora a cura da economia

Caroline Baum

Fonte: Valor Econômico, de 29/01/09


"Alguém de volta à Terra após uma estada de um ano no espaço sideral pode ser perdoado por sentir-se desorientado.

 

Afinal, quando esse viajante estelar partiu de nosso belo planeta, a economia dos Estados Unidos se entortava sob o peso do estouro da bolha imobiliária. O jogo de acusações estava a todo ritmo e a lista de vilões incluía desde Alan Greenspan e suas políticas de dinheiro fácil até os consumidores captando e gastando além de seus meios, passando ainda pelas instituições financeiras que permitiram gastos perdulários e a transferência equivocada de capital para o setor imobiliário.

 

Adiante a cena em um ano e a crise ainda permanece grave e os vilões continuam sob ataque. Ocorreu, no entanto, algo curioso: as políticas e medidas responsáveis pelos males da economia, agora estão sendo prescritas como curas.

 

Como pode ser? Não é apenas o nosso viajante estelar que está confuso.

 

Vamos começar com o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). No início, houve uma forte ascensão das ações de tecnologia e internet, seguida do previsível estouro. O dinheiro fácil, que inflara a bolha do mercado acionário, veio em socorro e nesse processo acabou fomentando outra bolha de magnitude ainda maior.

 

Greenspan, então presidente do Fed, deixou a taxa referencial de juros de um dia ficar em 1% por mais tempo do que o desejado, elevando-a de forma lenta o suficiente para que qualquer um, com boa avaliação de crédito ou não, tivesse tempo para entrar na onda imobiliária.

 

A bolha estourou com uma ferocidade que surpreendeu até os mais ardentes apostadores na alta do mercado. O custo do crédito overnight atualmente está entre 0% e 0,25% e o volume de crédito (o balanço patrimonial do Fed) mais do que dobrou nos últimos 12 meses. Se remover o estímulo monetário foi difícil em 2004, 2005 e 2006, tente apenas imaginar como será desta vez, quando a magnitude da tarefa exigirá medidas do Fed bem antes do que os políticos consideram ser possível.

 

Agora, passemos para a habitação, um ativo cujo preço nunca havia recuado de forma generalizada em todo o país desde a Grande Depressão. Pelo menos, não até que os preços das residências começaram a ser refinanciados continuamente em 2006.

 

Durante o auge do frenesi residencial, demasiado capital estava sendo alocado ao setor, um ativo improdutivo e com benefícios fiscais. E foi a habitação, as hipotecas usadas para financiar sua compra e a rede entrelaçada de créditos securitizados que colocaram a economia em queda livre.

 

Agora que estamos aqui, com mais residências à venda do que compradores dispostos a pagar os preços atuais, qual a solução do governo? Ó, tornar a compra de casas mais fácil - e mais barata. O Fed embarcou em um programa para comprar US$ 500 bilhões em bônus hipotecários no primeiro semestre deste ano, em uma tentativa para reduzir as taxas reais de empréstimos hipotecários, que caíram para o menor nível na história, de 5%, no início deste mês.

 

Em vez de deixar o mercado "limpo" - ou deixar os preços buscarem seu próprio patamar - as autoridades monetárias estão estimulando uma demanda artificial para a habitação, para evitar a queda dos preços.

 

Bem-vindos de volta à estaca zero.

 

Então, temos o consumidor, com dívidas por todos os lados. De 1952 a 1998, as pessoas físicas nos Estados Unidos foram um fornecedor líquido de fundos para o resto da economia, adquirindo mais ativos financeiros do que dívidas, segundo Paul Kasriel, economista-chefe do Northern Trust Corp., em Chicago.

 

Isso mudou em 1999, quando a "aquisição líquida de ativos financeiros" pelos grupos familiares nos EUA, como é chamada no Informe de Fluxo de Fundos do Fed, tornou-se negativa. As famílias foram "demandantes líquidas de fundos" até 2008, quando a conta tornou-se positiva de novo, diz Kasriel. "Não foi porque estavam adquirindo mais ativos. Foi porque não podiam contrair tantas dívidas".

 

Os bancos, queimados pelos próprios excessos anteriores, fecharam a torneira, de forma que agora até boas avaliações de crédito têm dificuldade para conseguir empréstimos.

 

O governo quer assegurar que os consumidores, cujos gastos representam cerca de 70% do PIB, possam captar e gastar. É algo que faz tão pouco sentido quanto valer-se de dinheiro fácil e incentivos à habitação para curar os efeitos do dinheiro fácil e dos excessos cometidos nos investimentos em habitação.

 

"O que as autoridades monetárias dos dois lados do Atlântico desejam é sustentar a alavancagem das famílias e o consumo a qualquer preço, quando a única saída da crise de crédito envolve a volta à poupança dos que estão muito alavancados", escreveu David Roche, presidente da consultora londrina Independent Strategy, em artigo opinativo no "The Wall Street Journal" de 22 de janeiro. "Isso não pode ser alcançado de forma indolor".

 

O governo federal, ainda assim, busca formas de tornar as hipotecas e o crédito mais barato e mais disponível, entrando em mais dívidas nesse processo. Instituições consideradas grandes demais para quebrar, como as gigantescas financiadoras de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac, foram recrutadas dentro desses esforços. (Isso foi depois de lhes dizerem para restringir a expansão de suas carteiras e antes de passarem para a custódia do governo.)

 

São soluções de visão limitada e curto prazo, sendo orquestradas à custa da saúde de longo prazo da economia, e eu suspeito que a maioria dos economistas sabe disso. (Os políticos são outra história. Seu conhecimento de economia geralmente é limitado à questão do comércio: conceder favores em troca de contribuições de campanha.)

 

A ótima equipe econômica do presidente Barack Obama, que inclui Larry Summers e Christina Romer, e autoridades do Fed, de Ben Bernanke para baixo, precisam entender que o problema da alavancagem excessiva não pode ser consertado com mais captações; que a alocação inadequada de capital à habitação não pode ser curada com incentivos para a compra de mais casas; que os consumidores (e a nação) não podem abrir caminho para a prosperidade gastando.

 

Eu, pelo menos, tenho esperança que eles entendam."

 

Caroline Baum é colunista da "Bloomberg News".

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