segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CORRIDA DE ESTRANGEIROS POR TERRAS BRASILEIRAS

Carlos Drummond. De Campinas (SP)

Em meio à crise econômico-financeira mundial e em parte por ela estimulada, teve início uma corrida de países importadores de alimentos em busca de terras agricultáveis de países produtores que poderá conduzir a um neo-colonialismo. O alerta, feito por Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, organização da ONU encarregada de assuntos de agricultura e alimentação, ecoou primeiro no Financial Times e, neste final de semana, no The Guardian Weekly, ambos jornais ingleses.

Entre os países que seriam alvo da corrida estaria o Brasil, com seus 200 milhões de hectares de terras cultiváveis e maior produtor mundial de açúcar, café, carne e frango. A Arábia Saudita e a China seriam alguns dos países interessados no aproveitamento de terras agrícolas brasileiras, de acordo com o semanário inglês. Um exemplo recente da corrida por terras é o anúncio feito há duas semanas pela empresa coreana Daewoo Logistics, do plano de uma operação de leasing de um milhão de hectares em Madagascar por um prazo de 99 anos, para produção de óleo vegetal.

O assédio por terras para produção de alimentos soma-se à escalada de aquisições, feitas nos últimos anos por investidores e empresas estrangeiros, de áreas para produção de fontes de energia renovável, principalmente cana-de-açúcar. Essas operações são puramente comerciais: o investidor estrangeiro compra a terra, produz cana e álcool e exporta, além da terra utilizada, água e energia solar. Ao contrário do que fizeram países como a Finlândia, na produção de celulose, o Brasil não estabeleceu qualquer contrapartida para os investidores estrangeiros, como a transferência de tecnologia e o financiamento de centros de pesquisa. Não há indício de que, no caso da aquisição externa de terras agricultáveis do Brasil, o procedimento será outro.

Diouf alertou que "algumas negociações levaram a relações internacionais desiguais e a uma agricultura mercantilista de curto prazo". Há um outro risco, identificado por Diouf: o da reprodução de condições desumanas de trabalho no campo. No caso da cana-de-açúcar, é internacionalmente conhecida a situação degradante de trabalhadores brasileiros, inclusive em regiões produtoras de São Paulo, estado mais rico do país. O dirigente da FAO recomenda a formação de joint-ventures entre os países compradores e os vendedores para estabelecer condições eqüitativas nas transações de áreas agrícolas.

A restrição de exportações de produtos agropecuários de países como a Índia, a Argentina, o Vietnã e a Rússia, para assegurar o abastecimento dos seus mercados internos, aguçou a percepção de importadores como a Arábia Saudita e a China quanto à importância estratégica de terem controle sobre a produção externa de alimentos que consomem. China e Arábia Saudita querem diminuir a sua vulnerabilidade não só quanto a oscilações de preços, mas também no que se refere ao risco de interrupção de suprimento.

Além de visar áreas de produção na América Latina, buscam extensões de terra também na África e na Ásia. As proporções da corrida internacional por terras para produção de alimentos levaram a FAO a criar uma força-tarefa para analisar os problemas potenciais ligados a esse movimento, a exemplo dos direitos sobre a terra e do controle das exportações para evitar escassez de alimentos nos países produtores.
Terra Magazine

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