domingo, 23 de novembro de 2008

FRANÇA PÓS GUERRA

Quem se interessar pela França deve ler "Passado imperfeito: um olhar crítico sobre a intelectualidade francesa no pós-guerra", de Tony Judt, um inglês que, como outros em busca de melhores salários, migrou para os EUA, mais especificamente para NYU.

Estava entre as mais lidas na principal livraria do RJ.

É uma obra provocadora e forte. Descreve como os intelectuais franceses perderam o rumo no pós segunda guerra por compromissos com a época da "resistência" aos alemães pelos intelectuais em sua maioria comunista (tendo Sarte como ícone, mas outros também menos prestigiados no exterior como Morin).

O autor sugere que os intelectuais franceses do pós-guerra talvez movidos por alguma culpa de pouco terem feito concretamente durante a ocupação alemã, passaram a defender intransigentemente um engajamento político. O intelectual não poderia se omitir particularmente de se endossar o comunismo.

Mostra como a filosofia sartreana e a sociologia dominante francesa fez questão de não enxergar os absurdos do regime soviético, particularmente de Stalin. Mais, descreve com detalhes execuções sumárias levadas a efeito por Sartre e seus companheiros comunistas de um certo comitê de julgamento de intelectuais "colaboradores" com os alemães durante a ocupação. Sim, execução mesmo, como aos tempos da revolução francesa em sua época do terror.

Pior para os intelectuais franceses seria uma nova "ocupação", agora por valores individualistas dos norte-americanos que exigiria uma nova "resistência" (estou ainda resumindo o autor).

Preferiram os intelectuais franceses do main stream rejeitar o idealismo e o racionalismo neo-kantista (destruído pela sociologia de Comte e Durkheim), bem como o positivismo dos exilados de Viena. Ficaram com a recuperação de autores alemães do século passado como Heidegger, Nietzche. Preferiram condenar as injustiças do sistema capitalista ao invés de rejeitar os absurdos concretos praticados contra indivíduos pelo sistema comunista.

Na minha leitura, o autor sugere que o orgulho francês não permitiu aceitar o fiasco da quase absoluta ausência de resistência aos alemães e de sua dívida com os norte-americanos. Preferiram dever aos russos...

Nesse visão, os franceses não poderiam adotar uma filosofia analítica, individualista e racionalista nesse contexto...e talvez aí (e isso deixo para os filósofos) tenha a França se perdido na pós-modernidade e sua contribuição para a filosofia tenha ficado no passado...

Mas isso foge da provocação do autor.

Luciano Timm

2 comentários:

Germano Schwartz disse...

Timm.
Há que levar em consideração alguns fatos que influenciam o autor:
1) Ele é inglês - no contexto das relação anglo-francófonas , em que ser católico ou protestante ainda é relevante, não podemos esquecer disso.
2) A França, sim, está preso a um gauche de passado. Todavia, diante da crise atual, Sarkozy e antes o Villepin (11 de Setembro) foram vozes muito ouvidas na Europa Continental.
O livro,portanto, porque o li (fiz sanduíche em Sorbonne e pós-doutorado na Inglaterra) é mais um fruto da história havida no Canal da Mancha.

Luciano Timm disse...

Olha, a pesquisa dele é minuciosa citando autores da época...

Mas claro que deve ser lida cum grano salis.

Eu conheço bem essas rivalidades, mas te confesso que vi mais "pé atrás" com os franceses dos norte-americanos do que os ingleses.

Os ingleses ainda tem pela França aquela admiração que nutrimos por nosso valoroso adversário.

Todo guri no colégio respeita aquele coleguinha que teve trabalho numa briga, não é verdade?

Por outro lado, não foram tão poucos os ingleses convertidos para esquerda nos séculos XIX e XX.

Mas ainda acho que os anglo americanos (talvez com um período recente de cegueira como exceção) tentam interferir menos na vida dos outros e tem mais desenvolvimento econômico por conta disso.