domingo, 5 de outubro de 2008

Regulação no mercado pode "errar na mão"

"Entrevista Claudio HaddadEx-diretor do BC aponta risco de excesso na regulamentação após crise Para economista, tomar risco faz parte do jogo e permitiu desenvolvimento; contrapartidas são as crises financeiras cíclicas
Ex-sócio do Garantia, banco que ajudou a moldar o mercado brasileiro, o economista Claudio Haddad afirma que, após o pânico nos mercados, virá a crise na economia "real", uma tendência intervencionista de regulação que "pode errar na mão" e a recuperação. Ex-diretor do BC e diretor-presidente do Ibmec-SP, Haddad não vê uma crise no capitalismo financeiro, mas um acidente que ocorre de tempos em tempos. "Se não fosse a disposição de tomar risco, não haveria desenvolvimento."FOLHA - Como conviver com a atual instabilidade nos mercados?CLAUDIO HADDAD - Temos que esperar passar a tempestade e depois procurar novas oportunidades. Chega um ponto em que começa a ficar atraente de novo. Agora, só vai poder ver o que ficou atraente quando passar a tormenta. Com essa tempestade -e com a visibilidade zero-, o melhor é ficar debaixo de uma marquise e se proteger.FOLHA - Qual o sinal de que a tormenta está passando?HADDAD - Quando o ritmo se reduzir e [a Bolsa] passar a cair mais devagar. O problema agora é resolver esse sufoco do sistema financeiro e torcer para que essa desalavancagem se dê com um mínimo de perturbação. Que [a recuperação] vai acontecer, vai. Tem muitos fatores que continuam impulsionando o crescimento.FOLHA - O que sucede o pânico?HADDAD - Vem a crise na economia real e tem também a regulação. Haverá uma tendência de colocar regras para não deixar essas coisas acontecerem de novo. E que pode errar a mão e ser excessiva. Crises periodicamente acontecem. É bom não achar que somos superpoderosos, inteligentes e controladores para evitar que novas crises aconteçam. O negócio é aprender sempre, minimizar os efeitos e colocar incentivos para sair o mais rápido possível das futuras crises. Mas muita coisa tem de ser revista.FOLHA - Ruiu o modelo de banco de investimento e do capitalismo financeiro que temos hoje?HADDAD - Não, mas haverá uma volta para o básico do mercado. Certamente, vai haver menos exageros. Uma coisa é entender o que se faz, no que aplica, e muita gente não entendia. E terá de ter mais transparência. Sobre o capitalismo, ninguém descobriu um sistema melhor. Pode ter muitos defeitos -e tem-, mas o problema é que os outros são piores. Não há nada de alternativo com um mínimo de eficiência.FOLHA - Risco é sempre ruim?HADDAD - Não, porque é assim que o mundo anda. Se as pessoas não assumissem nada, ainda estaríamos na Idade Média. Se não fosse o engenho humano, a disposição de tomar risco, a livre iniciativa, não haveria desenvolvimento. A contrapartida é que alguns erros são cometidos, você tem recessões e crises. A única coisa que a gente sabe é que a próxima crise será diferente desta e das outras.FOLHA - A decepção do pequeno investidor vai prejudicar o mercado?HADDAD - A gente vai pagar um preço alto. Uma das coisas extraordinárias que aconteceram no Brasil nos últimos anos foi o ressurgimento do mercado de capitais, que é ótimo para a formação de capital e de novas empresas. Muitos investidores que entraram vão ficar traumatizados e talvez se afastem.FOLHA - O que o país pode fazer?HADDAD - É importante cuidar da política fiscal, que necessita de muitos ajustes. Os gastos crescem acima do PIB.FOLHA - Não é difícil pedir corte nos gastos aqui, quando os EUA despejam dinheiro nos mercados?HADDAD - Mas o governo não gosta de inflação, não quer crise financeira e quer uma taxa de juros baixa para favorecer o crescimento. Se colocar tudo isso na equação, o governo pode concluir que, seguindo uma política fiscal mais conservadora, pode precisar de uma política monetária menos contracionista, que teria efeitos benéficos para todo mundo. E aí o cacife político aumentaria com a política fiscal conservadora.FOLHA - Qual o papel do BC, do BNDES e do governo durante a crise?HADDAD - Aumentar a oferta de crédito na época em que o BC está perseguindo uma política monetária contracionista não parece uma boa opção. Claro que se pode ter bolsões. E reduzir o compulsório me parece adequado. Mesmo que o problema seja aumentar a oferta de crédito, a pergunta é: a que taxas? Por que tem de ser subsidiado? O subsídio favorece poucos com custo para muitos."


Fonte: Folha de São Paulo


TONI SCIARRETTA
Folha de S. Paulo
3/10/2008

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