segunda-feira, 21 de julho de 2008

Behavioral finance

Os gráficos estão certos. Um preço alcançado por uma ação ou pelo Ibovespa em determinado momento no passado influencia as cotações futuras. Tal essência, defendida pela análise técnica há pelo menos oito décadas, agora encontra abordagens científicas no campo das finanças comportamentais. No Brasil, o tema foi objeto de estudo do economista Bernardo Fonseca Nunes, em dissertação de mestrado apresentada no mês passado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A pesquisa, que pretendia evidenciar as vantagens da gestão ativa de portfólios levando-se em conta os fatores que direcionam o comportamento do investidor, será divulgada no encontro da International Association for Research in Economic Psychology (Iarep), em Roma, em setembro. "Os padrões gráficos alteram nossa visão sobre comportamentos futuros, os argumentos dos grafistas são basicamente psicológicos", diz Nunes. No seu trabalho, o pesquisador replicou um experimento realizado em 2003 por Mussweiller e Schneller, com 34 estudantes de graduação de economia e negócios da Universidade de Würzburg, na Alemanha. No Brasil, o público alvo foi composto pela faixa etária da população que mais cresce no home broker, entre 15 e 30 anos, e que tem plena afinidade com todo o instrumental da análise técnica.
Foram selecionados 47 alunos de graduação em economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e divididos em dois grupos.
Na média, eles tinham uma vivência de 3,32 meses em acompanhamento do mercado de capitais, seja na prática profissional, seja como investidores. Cada um das equipes recebeu textos, dados de balanço e indicadores de duas companhias fictícias do setor de varejo, além de gráficos com diferentes padrões. A primeira turma recebeu relatórios das empresas 1 e 2, com gráficos ressaltando a alta (alta saliente) e a baixa (baixa saliente), respectivamente. A outra, recebeu os mesmos relatórios, mas com inversão dos padrões gráficos, de baixa saliente para a
empresa 1 e de alta saliente para a 2.
De posse desses dados, os participantes tiveram de estimar um preço alvo para as duas companhias analisadas para os próximos 12 meses, como se estivessem orientando um amigo. Todos os gráficos partiam de um valor de R$ 100,00 para cada ação, chegando a R$ 120,00 no tempo presente (outubro de 2007, no caso).
No meio do caminho, os gráficos com altas salientes levaram os papéis para R$ 180,00, enquanto nos de baixas salientes, as cotações caíram a R$ 20,00 antes de dar a mesma rentabilidade final, de 20%.
O resultado foi que o valor médio projetado para as ações que tiveram picos de valorização foi de R$ 132,27, 18% superior aos R$ 112,41 estimados para os papéis com gráficos de baixa relevante. Nunes ressalta que os testes estatísticos, que levam em conta o chamado desvio padrão da amostra (oscilação), confirmaram essa diferença.
Embora os gráficos não sejam instrumentos utilizados para se estimar preços de ações, a memória coletiva está registrada neles na forma de suportes (pisos, que podem desencadear compras) e resistências (tetos, que podem chamar vendas), diz o analista técnico da Link Investimentos, Márcio Noronha. "Os gráficos mostram um consenso de valor de todos os participantes do mercado", afirma. "Quando uma ação atinge determinada resistência e o investidor sabe que no passado o preço não foi além daquele nível, ele vende o papel, a relação risco/recompensa é favorável."
No trabalho de Nunes, foi a análise técnica o alvo da verificação, mas o pesquisador não deixou de considerar a análise fundamentalista, também do ponto de vista comportamental. Os rofissionais que se debruçam sobre os balanços das empresas para descobrir qual o preço justo para uma ação pelo método de fluxo de caixa descontado tentam antecipar algo que, em tese, o mercado inteiro vai descobrir lá na frente. De nada adianta, porém, ele ter uma visão isolada sobre a
atratividade daquele papel se os seus pares ou outros participantes não formarem um consenso a respeito. "A estratégia ótima para o gestor de investimento tem de contemplar os vieses comportamentais dos demais, ele tem de dar resposta a determinados movimentos de mercado", enfatiza o economista.
Tanto como qualquer outro tipo de informação econômica que esteja estampada nas manchetes dos jornais, as análises podem influenciar os investidores, gerando comportamentos de manada, bolhas ou crashs, diz a psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, consultora na área psico-econômica e representante da Iarep no Brasil.
"As análises podem ter influência no sentido da ancoragem", afirma. "As pessoas ficam presas a determinados valores numéricos e, mesmo que eles nunca tenham sido relevantes, acabam servindo de referência para a tomada de decisões." Nunes lembra o estrago recente que o rebaixamento dos preços da Laep e da Dufry Brasil, pelo UBS Pactual, teve sobre o desempenho das duas ações.
A maior parte dos investidores tem a chamada visão pelo retrovisor - olhar o movimento do mercado no passado, imaginando que o mesmo irá acontecer no futuro -, que, em muitos momentos, se mostra como uma estratégia equivocada, lembra o estrategista do Santander, Marcelo Audi. "O consenso muitas vezes está errado e é nessas horas que surgem as boas oportunidades do mercado, pois é quando ocorrem as distorções de preços", afirma.
No fim do ano passado, por exemplo, quando o Índice Bovespa estavam em 64 mil pontos e em franca valorização dia após dia, começaram a surgir alguns indícios de que haveria um desaquecimento da economia tanto local quanto mundial. No entanto, a maioria dos investidores e dos profissionais de mercado ignorou tais sinais e preferiu olhar para o retrovisor, encontrando nele um passado muito corde-rosa, com cinco anos consecutivos de alta da bolsa brasileira.
"Os poucos que perceberam que os fundamentos das economias estavam se deteriorando encontraram uma oportunidade de investimento: venderam as ações quando o Ibovespa estava em 64 mil pontos e se livraram de toda a queda que o índice sofreu desde então", argumenta Audi. Ele acredita que as pessoas olham o passado e têm dificuldade de perceber que a situação no futuro pode ser diferente por uma questão de inércia de comportamento. Se na hora de definir o cenário futuro estar contra o consenso pode ser uma oportunidade, no momento seguinte o consenso precisa convergir para a opinião do investidor. Só assim o que ele previu (uma queda ou uma alta do mercado) de fato irá se concretizar, completa Audi.

Fonte: Valor Economico: http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/eueinvestimento/49/A+mente+do... 11/07/2008

Matéria enviada pelo Giacomo!

Comentários: os papers que o Cooter estava discutindo no seminário dele de Law and Economics em 2007 eram sobre este tema. Atualíssimo!

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