sexta-feira, 27 de junho de 2008

POLIITICAMENTE CORRETO

(BOA)UNIVERSIDADE PARA TODOS, NO LUGAR CERTO


Há duas questões no ar sobre o tema UNIVERSIDADE. Uma, levantada no Fantástico de algumas semanas atrás, mas sempre presente na mídia, trata do baixo nível dos vestibulares nas Faculdades e Universidades privadas; outra da criação de duas Universidades para o”Terceiro Mundo” no Brasil, uma de caráter latino-americano , que funcionará na tríplice fronteira , sede em Iguaçu, a segunda, perto de Fortaleza, Ceará, na primeira localidade a abolir a escravidão no Brasil.
First things first: Os vestibulares das escolas privadas.
Por todo o lado levantam-se vozes contra o baixo nível destes vestibulares. Conta-se que, aplicados a alunos da 8ª série, mais da metade seria aprovado. Fazendo coro com essa crítica as “pérolas” dos exames do ENEM se transformam em gozações que rolam na INTERNET. Mas pensemos melhor sobre esse assunto.
No Brasil, nos anos 60, um dos fortes impulsos ao movimento estudantil era a luta pelo aumento de vagas nas Universidades públicas. O país vinha abaixo com os estudantes ocupando as ruas e aproveitando-se disso gritar “ABAIXO A DITADURA”. Mas, com o tempo, veio a reforma universitária, o ensino do terceiro grau foi aberto – escancarado – à iniciativa privada e o governo livrou-se limpinho dessa responsabilidade. Acabou a ditadura (pelo menos a militar), acabaram-se as grandes manifestações de rua do movimento estudantil, acabou-se a reivindicação por uma universidade pública e gratuita para todos. Hoje quem tem grana, é de classe média alta, freqüenta os melhores cursos privados das capitais, vai aos Estados Unidos de férias e aproveita para estudar inglês e tem todas as vantagens sociais de uma elite privilegiada para passar nos vestibulares “públicos”. O resto, que é a grande maioria da população estudantil que termina o segundo grau, se quiser faculdade, consola-se com os cursos noturnos, de pior qualidade, das Faculdades privadas. E tudo foi se encaixando sem qualquer contestação. Tudo muito “normal”, como deve ser...No Governo Lula aperfeiçoou-se a “perversidade”: elevou-se consideravelmente o apoio ao financiamento das faculdades privadas. Tudo muito normal, como deve ser...Ah! E criaram-se as “cotas”, como deve ser...
Ora, isto não tem nada de normal , nem “como deve ser”. Isto é uma barbaridade, um barbarismo que além de açoitar com os preços das mensalidades os menos Isto é uma barbaridade, um barbarismo que além de açoitar com os preços das mensalidades os menos privilegiados socialmente acaba criando um sem número de outros problemas. Eles normalmente estudam à noite, moram nos bairros afastados , onde a violência é maior, usam transporte coletivo de péssima qualidade e pagam dobrado, em termos de custos pessoais, o preço de estudarem em Faculdades privadas.
Isso não é certo. E acaba gerando na população jovem um sentimento de revolta e frustração, ressentimento mesmo, contra a sociedade.
E aí vêem os entendidos e criticam o mecanismo de acesso a esse verdadeiro inferno: o vestibular. Gostariam que houvesse maior exigência para que os “infelizes sociais” entrassem na universidade. E há até os que exigem que, depois de formados, se submetam a exames de qualificação nos abomináveis Conselhos Profissionais, a exemplo da OAB. Por sorte, uma Juíza do Rio de Janeiro , recentemente, deu ganho de causa a dois advogados que contestaram na Justiça essa excrescência bacharelesca, de inspiração corporativa.
Ora, como se dizia , no meu tempo de moço: “Vão plantar batatas...!”, como “deve ser”...
O Brasil saiu de 13 milhões de pessoas em 1900 e passou para quase 200 milhões no final do século XX, numa explosão inimaginável de gentes – como dizia o Darcy Ribeiro - que se multiplicaram nas sobras, dobras e sombras de uma sociedade elitista que viu o Estado encolher, justamente quando mais precisava crescer para dar “conta e razão” dos novos imperativos sociais. Ainda por cima transplantou essa população do campo para a cidade, onde , na verdade, houve a “multiplicação”, não dos pães, mas das bocas. E aí estão esses brasileiros, tentando sobreviver, vendo, no caminho muitos caírem no crime, na prostituição, na degeneração moral e social, mas resistindo. “Aqui não tem só bandido, moço”, afirma a moradora da favela. E é verdade. E onde estudam esses milhões de crianças? Ontem saiu o Censo Escolar do MEC. Estão nas escolas públicas Brasil afora, aliás, adentro... Essa gente estuda com imensa dificuldade. De transporte escolar, de merenda, de material escolar, de professores, de instalações. De tudo. Ali só há mesmo é boa vontade. O resto é dificuldade. Então se “formam”. Uma alegria para a família. –“Essa vai pra Faculdade”, diz o pai esperançoso, a mãe calejada. –“Vai fazer vestibular...!” Orgulho em casa. E lá vai a moça – elas são mais dos que os homens , porque provavelmente têm mais resistências morais numa conjuntura de grandes mudanças nos costumes e na vida social: Fazer o vestibular...

Aí vem um espertinho e diz que ela “não tem nível” para entrar no terceiro grau. E que as Faculdades privadas estão apenas interessadas nas mensalidades que ela (não) pode pagar. Tudo muito certo, tudo muito bonitinho, como deve ser...a todos de “boa consciência”.

Ora, não quero discutir, aqui, o interesse privado das Faculdades. Quero discutir essa barbaridade de se criticar, nesse sistema de diferenciações sociais e culturais socialmente perverso, porque entrega o ensino superior à “escolha” privada, a questão do vestibular. Proponho até que se acabe com essa palhaçada que só se presta mesmo a execração pública. Quem quiser entrar numa Faculdade e tiver o diploma, se houver vaga, tem o direito de entrar. Com esse ou aquele “nível”, que foi o que essa criatura conseguiu amealhar ao longo de uma vida de grandes sacrifícios. Chegar à Faculdade para ela não é apenas um luxo, embora o seja também, como resultado de uma sociedade bacharelesca que enobrece mais o título do que a competência. Mas essa é a realidade do país e dessa gente e ninguém tem o direito de criticar colocando-se num pedestal de fina sabedoria. Fazê-lo é, no mínimo, crueldade. Que moral tenho eu, filho de um militar e uma professora, que estudei em escola pública, em universidade publica, para criticar a maneira como os “goianu falum, quandu diss que a genti inda mudamu esse trein...!” Ora, entrar na Faculdade para esse povo, é uma conquista pessoal imensa- UMA REVOLUÇÃO -.Aí eles terão uma oportunidade de ver o sol nascer sob uma nova ótica, terão maior auto-auto-estima, maior reconhecimento social e, last but not least, um saláriozinho um pouco melhor, como professora numa vila, como gerente de loja num subúrbio, como adevogado em alguma pequena cidade e assim por diante. Alguns surpreenderão e falano e escreveno errado se destacarão profissionalmente. Mas eles precisam sair do sub-solo. Precisam ganhar os ares de um mundo que só vêem na televisão. Precisam entrar numa Faculdade. E o vestibular que se dane, pô! Eles estão pagando para isso. E quietinhos, sem reclamações , sem bombas explodindo a esmo, nem caras feias.

Em segundo lugar, o outro tema, aproveitando a deixa: Lula, agora, vai fazer duas universidades para o terceiro mundo: para os latinoamericanos no Paraná; outra, para os africanos, no Ceará. Primeiro erro: geográfico. Má escolha. Africano deveria que mesmo é pra Bahia, pra sentir a ligação profunda do Brasil com a África que ali reina; e latinoamericano, aliás, hispanoamericano mesmo, deveria vir para o coração da América do Sul, que fica em Brasília. Aliás, o melhor é que todos viessem para Brasília, que é a síntese desse país e uma cidade exemplar , que custou o preço de uma geração mas conquistou uma invejável qualidade de vida -de primeiro mundo- e com uma universidade exemplar (UnB), com capacidade e vocação indispensáveis para promover a almejada integração do Brasil com suas raízes e projeções. Mas além da geografia, há outro equívoco: o nível universitário. Não se faz uma verdadeira universidade da noite para o dia. Leva anos. Mesmo a UnB, depois de quase 50 anos , ainda tem um nível acadêmico muito baixo. Basta ver os indicadores. Mas imagine-se uma universidade no interior do Paraná e do Ceará...! Presidente Lula, não se trata de preconceito, trata-se , aqui , de conceito como deve ser mesmo : O que é uma Universidade...? Não é um lócus, Presidente, embora também o seja – e daí Brasília como melhor opção geográfica, financeira e cultural - , mas é um espírito cultivado através dos séculos.

Paulo Timm – Professor da Unb

Nenhum comentário: