sexta-feira, 23 de novembro de 2007

P&D no país hospedeiro: larga vantagem

A culpa pelo baixo investimento em P&D pelas susbsidiárias de companhias sediadas em países desenvolvidos frequentemente recai sobre as multinacionais, como se não investissem em P&D nos países em desenvolvimento por livre escolha. Para verificar a coerência de tal afirmação, deve-se analisar o ambiente no qual a transferência de tecnologia ocorrerá.

De que adianta transferir tecnologia de ponta para a subsidiária se esta está inserida em um ambiente negocial que não preza pela segurança jurídica e não respeita os direitos de propriedade intelectual? É cediço que se o inovador não tem condições de se apropriar do valor social de sua inovação, não terá incentivos para continuar inovando. Quanto menor a proteção conferida, maior é a chance de ocorrer o spillover, ou seja, outras pessoas que não os contratantes se beneficiam da transação sem que, em contrapartida, o inventor da tecnologia seja por isso recompensado

Ainda, de que adianta transferir tecnologia se esta não teria condições de ser assimilada (ou os custos para a assimilação seriam incentivos negativos para a transferência)? Em um ambiente negocial como esse, os inovadores não transferem tecnologia, ou quando o fazem, a tecnologia transferida é defasada. Não é demais perguntar: a culpa é só do inovador?

Uma olhada, ainda que rápida, nas condições oferecidas pela Coréia do Sul à ocorrência não só da transferência de tecnologia pelas companhias sediadas em países desenvolvidos para as suas subsidiárias atuantes no referido país, bem como ao incentivo existente para que os próprios programas de P&D dessas companhias ocorram em território sul-coreano, faz-se necessária para entender a razão de, embora o Brasil ter atraído muito mais multinacionais norte-americanas do que a Coréia, o desempenho tecnológico destas subsidiárias é superior no caso sul-coreano.

A Coréia do Sul restringiu, ao contrário do Brasil, os investimentos estrangeiros diretos em sua indústria durante as décadas de 1960 e 1990. Neste período, procurou desenvolver, tal como o Brasil, a sua indústria nacional. A diferença entre os dois países é que na Coréia do Sul foram criados incentivos para a formação dos chaebols (conglomerados) - o que, a princípio não daria certo, tendo em vista os três estágios do desenvolvimento demonstrados por Cooter, Schäfer e Timm em "Menos é mais" - que deveriam competir globalmente, forçando-os a buscarem sempre a melhor tecnologia, vez que, caso contrário, seriam apenas gigantes inamovíveis, incapazes de enfrentar a concorrência internacional (alguns desses conglomerados são Daewoo, Hyndai, Samsung e LG).

Nesse período, no Brasil, a preocupação era a substituição dos produtos importados com o objetivo de suprir a demanda interna, produzindo-se nacionalmente o que antes se importava. A falta de concorrência na indústria nacional foi causa da, conseqüente, falta de inovação.

A Coréia do Sul, ao contrário do Brasil, investiu pesado na capacitação de sua indústria para receber e produzir tecnologia de ponta. Nesse sentido:

1. Houve substancial incentivo para a criação de laboratórios formais de P&D no setor privado, com o governo dando incentivos fiscais e concedendo financiamentos preferenciais para a sua instalação. Cabe ressaltar, por oportuno, que, juntamente com estes incentivos, a necessidade de sobreviver à concorrência fez com que o número de laboratórios de P&D nas empresas privadas passasse de 1 (um), em 1970, para 2.275 (dois mil duzentos e setenta e cinco), em 1995, os quais encontram-se, principalmente, nos chaebols.

2. Investimento em educação: na falta de recursos naturais, os governos sul-coreanos investiram na formação de capital humano, tendo sido a formação de pessoal qualificado uma das fontes do desenvolvimento da Coréia do Sul, porquanto possibilitou a compreensão de tecnologias de produção através da engenharia reversa.

3. Fortalecimento da relação entre os setores da indústria e as universidades e instituições de pesquisa. Além disso, os programas governamentais de P&D foram diversificados, com alguns ministérios do governo organizando os seus próprios programas de P&D.

Assim, as multinacionais que lá se instalam têm de, em primeiro lugar, enfrentar a forte concorrência da indústria doméstica, a qual é, em razão dos conglomerados, internacionalmente competitiva, e que colhe os seus frutos advenientes de seus próprios programas de P&D; as multinacionais têm incentivos para lá se instalar em razão da mão-de-obra qualificada que lá já se encontra, facilitando a assimilação de novas tecnologias, além do próprio desenvolvimento local; os trabalhadores sul-coreanos são disputados tanto pelas multinacionais estrangeiras quanto pelas nacionais privadas, resultando disso uma melhor remuneração, o que, fora de dúvidas, aquece as vendas, que aquece a produção e que, no final desse movimento, a geração de riqueza será cada vez maior.

Em um ambiente doméstico como o descrito, o Brasil larga atrasado. Por isso a importância de medidas como as referidas no post abaixo “Pac da Ciência”, sem descurar, entretanto, das indagações contidas nos comentários ali lançados.

As informações aqui postas estão embasadas no artigo “Origem do Capital e Desenvolvimento Tecnológico: uma análise comparativa entre Brasil e Coréia do Sul”, de Graziela Ferrero Zucoloto (IE/UFRJ).

3 comentários:

Luciano Timm disse...

I. Renato mas as instituições não importariam para a internacionalização da tecnologia...se o paper estiver correto independentemente do sistema jurídico do país hospedeiro não haveria transferência de boa tecnologia.

II. Em todo caso o texto a que referes em co-autoria com o Cooter seria complementar a este pois ele não está voltado a transferência da tecnologia, mas sim ao ambiente legal para o surgimento da inovação. Na Coreia o ambiente legal não foi importante porque foi imposto por um regime ditatorial. Hipótese excluída para o Brasil, que teve sua "chance". A outra solução para inovação é depender de mecanismos de mercado, como o vale do silício. Aí o paradigma passaria pelo direito privado mesmo.
Note que em alguns pontos o Brasil já chegou ao terceiro estágio, mas a falta de qualidade na educação barra inovações tecnológicas. Em nosso texto está dito que o Estado tem papel fundamental no desenvolvimento de infra-estrutura, educação, etc.

Renato Caovilla disse...

1. Sim, as instituições importam para a transferência.

2. O que digo é que o país que tem melhor infra-estrutura para receber a tecnologia transferida leva vantagem sobre outros que, da mesma forma, pretendem se desenvolver por esse meio.

3. O ambiente legal no Brasil influenciou muito para que a tecnologia de produção ficasse defasada nos aos 80, vez que em ambientes fracos institucionalmente a tecnologia não é transferida, ou que se transfere é tecnologia ultrapassada.

4. Na Coréia do Sul, a partir dos anos 1960 – ditadura – o ambiente legal também não era favorável à transferência. Aliás, como no Brasil, pretendia-se proteger a indústria nacional. Em ambos os países não havia fluxo de boa tecnologia.

5. O que diferenciou um país do outro foi a concorrência: no Brasil, a indústria deveria suprir a demanda interna; na Coréia, os conglomerados competiam internacionalmente.

6. Embora ambos os países não tivessem instituições que favorecessem a transferência, a Coréia do Sul implementou um projeto de infra-estrutura, no que o Brasil largou atrás. Agora, ainda que ambos os países tivessem instituições igualmente propícias à transferência de tecnologia, em razão da melhor infra-estrutura sul-coreana, o Brasil estaria em desvantagem. Não?

7. O texto da comparação entre Brasil e Coréia serviu-me apenas como constatação.

Luciano Timm disse...

Sim, agora você tem um ponto. A Coreia conseguiu montar um modelo institucional que favoreceu a inovação talvez por competir internacionalmente e no Brasil a indústria nacional "mamou" nas benesses do estado e na proteção contra importações. Nos presentou com o "tk 85", "tk 2000", "programação basic"...Você que é mais jovem nem sabe o que é isso...mas é a tecnologia do parque dos dinossauros.
Mas acho que você está no caminho certo, temos que entender o caso da China e da Coréia do Sul.