sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A natureza recíproca do problema: comercializar carbono de florestas

Com base em matéria da Folha de S. Paulo, do dia 07/11/07, intitulada "Mercado de CO2 reduz 70% do desmate".

Há uma solução econômica para reduzir, em cerca de 70%, o desmatamento da Amazônia. O custo? Menos de US$ 10 por tonelada de carbono.

Esse é o valor que deveria ser pago a produtores rurais do Norte do Brasil para que deixar em pé as florestas que derrubariam, para fins de pasto e lavoura, seja mais lucrativo do que o produto de sua derrubada.

O cálculo foi feito por pesquisadores do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do Woods Hole Research Center, nos EUA, como parte do relatório "Três Estratégias Fundamentais para a Redução do Desmatamento", lançado no dia 07 último, na Câmara dos Deputados.

Segundo o Diretor de Pesquisa do Ipam, Paulo Moutinho, "Nós calculamos o chamado custo de oportunidade, ou o quanto se deveria pagar para um proprietário em terra privada com aptidão agrícola para não desmatar, mais um fomento a povos da floresta para a proteção de terras indígenas com dignidade e boa qualidade de vida [para os índios]".

Ainda, refere Moutinho, "A curva de custo não é linear. Para evitar emissões por fogo florestal e queimadas o custo é muito baixo. À medida que você adiciona nessa curva o custo de não formar pasto em áreas marginais, o custo é pequeno. Até que você entra numa parte onde o custo sobe exponencialmente, que é a região mais apta à soja, onde manter floresta por opção [econômica] seria burrice."

Entretanto, para que isso seja possível, é necessário a criação de um mercado de carbono no qual a redução do desmatamento pudesse valer créditos para países como o Brasil, cuja destruição de florestas tropicais é importante fonte de emissões dos gases que causam o aquecimento global (dois terços das emissões brasileiras vêm dessa fonte).

Quem pagaria o referido montante?

Moutinho diz que o valor a ser pago é baixo - cerca de metade do preço da tonelada de carbono no mercado hoje-, o que tornaria o carbono de florestas uma opção atraente para países que tenham metas de redução a cumprir por Kyoto.

Os produtores rurais concordariam em não derrubar as florestas por qualquer pagamento não inferior ao que arrecadariam se as derrubassem e exercessem, normalmente, as suas atividades. Isso variaria de acordo com o produto obtido em cada área que deixasse de ser derrubada. Ainda, os produtores poderiam utilizar os recursos que seriam empregados nessas áreas, em outros lugares.

Pergunta: é possível reconhecer em Ronald Coase, The Problem of Social Cost, a inspiração dessa idéia?

4 comentários:

Francisco Kümmel Alves disse...

Renato,

DEVE ser reconhecido Coase a inspiração para esta idéia.

Apesar desta idéia ser da década de 60,e Coase usar em um exemplo de criação de gado, aplica-se perfeitamente para o mercado de carbono.

Porque não aplicar isto desde logo? De uma maneira simples, encontrar-se-ia uma solução economicamente viável para o problema do desmatamento e se oportunizaria o afluxo de capital para ser aplicado em regiões que sabidamente são pobres e muitas vezes necessitam do produto do desmatamento para a subsistência.

Luciano Timm disse...

No blog do Posner havia um comentário semelhante sobre a China. Teríamos que indenizar a China para ela parar de poluir o mundo. Enquanto isso, juizes alternativos e ideológicos colocam em cheque o desenvolvimento do nosso Estado. Onde isso vai terminar...

Tiago Faganello disse...

Onde isso vai terminar? Não termina nunca, cada dias os juizes alternativos nos surpreendem cada vez mais.

Vinicius disse...

Prezados:

Assisti interessante palestra no início do ano, no salão de atos da faculdade de direito da UFRGS, intitulada "Desenvolvimento Econômico Ambientalmente Sustentável". O palestrante, o senhor DON MELNICK, biólogo, historiador e antropólogo, professor da Universidade de Columbia é coordenador, junto à ONU, de um dos 8 objetivos do milênio, qual seja, um meio ambiente sustentavel.

Ele já trabalha com alternativas ao protocolo de KYOTO, a fim de que florestas sejam efetivamente preservadas em países de terceiro mundo, como o Brasil. Os americanos são práticos e já perceberam que o meio ambiente será preservado apenas se existir uma VANTAGEM COMPARATIVA em relação a outros empreendimentos.

Ele utilizou um exemplo concreto: um lago (talvez em New jersey, não lembro) estava poluído e abandonado, apesar do manacial ser importantíssimo para o abastecimento de água da região. As propriedades rurais das margens estavam prestes a ser vendidas a empresas, o que aumentaria a poluição. O rio foi despoluído pelo governo, e o governo pagou incentivos a quem preservasse suas propriedades rurais. Empresas também aderiram ao programa, em um contexto de responsabilidade social.

Outro exemplo é na ìndia, em que trechos do Ganges foram privatizados, comprados pela coca-cola. A coca não fez isso por ser boazinha, mas porque precisa de matéria-prima de boa qualidade.

Outro exemplo: a associação civil que preserva maiores áreas de floresta, nos EUA, é a associação dos caçadores de patos. Eles preservam as áreas porque gostam das florestas? Não, eles querem é caçar patos à vontade.

Em suma, na área ambiental, assim como nas outras, o importante é conceder INCENTIVOS para que as atitudes seam condicionadas.

Ambientalismo de mercado, pura e simplesmente. Ou as pessoas ainda acreditam no bom selvagem rousseaniano?

Infelizmente, alguns radicais (ou utópicos bobos) sim...

Abraços,