quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Uma sentença inconveniente

O juiz Burton analisava se o documentário sobre mudança climática realizado por Gore – que sustenta a tese da ação humana como causa do aquecimento global – poderia ser exibido em salas de aula.
A sentença considerou o filme tendencioso, mas permitiu sua exibição sob condição de que os professores apontem os trechos polêmicos e apresentem os argumentos contrários às informações.
Assista à reportagem
Segundo o magistrado, os erros científicos da obra incluem a alegação de que o nível do mar subirá até 20 pés (mais de 6 metros) por causa do derretimento do gelo na Antártida e na Groenlândia.
Esta afirmação foi considerada "alarmista". Segundo o juiz, indícios apontam que o derretimento do gelo da Groenlândia liberaria esta quantidade de água "apenas em milênios".
Outra parte do documentário reprovada pelo juiz faz referência a estudos científicos que indicam que, pela primeira vez, ursos polares se afogaram ao tentar nadar longas distâncias – até quase 100 quilômetros – em busca de gelo.
"O único estudo científico que ambas as partes conseguiram apontar é um que indica que quatro ursos polares foram encontrados recentemente afogados por causa de uma tempestade", disse o juiz.
A Corte aceitou ainda a argumentação de que não há evidências científicas suficientes para estabelecer uma relação entre o aquecimento global e o desaparecimento da neve no monte Kilimanjaro, no leste da África.
Decisão 'embaraçosa'
O filme foi analisado a pedido do diretor de uma escola inglesa em Kent, que tentou barrar a exibição do documentário. Uma Verdade Inconveniente havia sido enviado a todas as escolas secundárias da Inglaterra, Escócia e País de Gales.
O documentário foi acusado de imprecisões em diversas ocasiões, mas venceu o Oscar de sua categoria em fevereiro deste ano e deu um "empurrão" para que o ex-vice-presidente americano fosse cotado para o prêmio Nobel da Paz, que será anunciado nesta sexta-feira.
Para o analista de meio ambiente da BBC Roger Harrabin, a decisão é "embaraçosa para Al Gore", e poderia levar o público a refletir sobre a polêmica envolvendo a validade das evidências científicas em torno do aquecimento global.
Para Harrabin, a sentença não afeta o governo britânico, já que o principal argumento do filme não é questionado.
"É importante esclarecer que os argumentos centrais de Uma Verdade Inconveniente, de que a mudança climática é causada principalmente por emissões de gases gerados pela ação humana e terá conseqüências adversas, são amplamente apoiadas em opiniões científicas", disse o secretário da Infância, Escola e Família da Grã-Bretanha, Kevin Brennan. "Nada no comentário do juiz desmente isto."


Comentário: a falta de profundidade dos filmes de Hollywood já é conhecida, agora alteração da verdade é novidade. Realmente a sentença é inconveniente a Al Gore. Aliás, os EUA poderiam começar assinando o Tratado de Kyoto ao invés de fazer filmes sensacionalistas. Esse Tratado é interessante por aplicar mecanismos de law and economics criando incentivos para a proteção ambiental. Do contrário, do que adianta ficarmos com este discurso "verde" no Brasil enquanto a China destrói o mundo e enriquece cada vez mais...outra verdade inconveniente...
Ou existem padrões internacionais de proteção ambiental ou teremos níveis de proteção ambiental em um país pobre como o Brasil superior a de países ricos.

Luciano Timm


4 comentários:

Renato Caovilla disse...

Pergunto se a divulgação massiva de “inconveniências” em matéria ambiental não serviria como uma forma de “chutar a escada”, i.e., fazer com que os países em desenvolvimento tomem um caminho mais longo para atingir o patamar de “desenvolvidos”?

Fábio Cardoso Machado disse...

Prezado Renato,
Julgo que a hipótese de que o alarmismo ambientalista seja uma espécie de tática ianque contra os países em desenvolvimento é absurda. Para compreendermos este movimento - e é disso mesmo que se trata, de um movimento político - temos que perceber o sentido da transformação da esquerda, que conciliada com o capitalismo adotou novas bandeiras, como o abortismo, o homossexualismo, e o ambientalismo. O alvo imediato é a cultura ou a moralidade judaico-cristã, e o objetivo político é o governo mundial. Na cena interna americana o alarmismo ambientalista é um instrumento de oposição aos republicanos, que insistem na autonomia do país para adotar ou não políticas ambientalistas tendo em vista o interesse dos americanos. Pensar que o alarmismo é uma tática americana para boicotar a emergência de novas potências é algo desprovido de sentido; trata-se na verdade de uma tática dos "liberals" - a esquerda americana, que não deixa de ser esquerda por ser americana - para convencer aos americanos de que o mundo inteiro está contra eles, e por culpa dos malvados republicanos, que insistem em desconfiar de sua santidade, a ONU, e dos "cientistas" ativistas cuja obsessão pela mudança climática não passa de uma sequela do movimento hyppie.

Renato Caovilla disse...

Caro Prof. Fábio,

Estou procurando aprender sobre o tema, e não divulgando ilações definitivas.

A indagação que fiz foi baseada no argumento – que não é meu - de que os países desenvolvidos pressionam os “em desenvolvimento” para que estes adotem práticas “boas”, a fim de atingirem o patamar do desenvolvimento, ou seja, para que haja convergência. Entretanto, para chegar ao lugar no qual se encontram, os países desenvolvidos não adotaram nenhuma das práticas ditas “boas” – i.e., não fizeram o que “recomendam” que os países em desenvolvimento façam, incluindo a questão ambiental. Por exemplo, o Reino Unido é um dos países que lideram a campanha pela redução de emissões. O então Primeiro-Ministro Tony Blair e seu partido prometeram, dez anos atrás, diminuir as emissões de gases do efeito estufa em 15% até 2010. Segundo a Revista Exame, desde então, as emissões britânicas cresceram 3%.

Pode ser que o argumento seja falho...

Quando indaguei não me referi apenas à situação americana. Não obstante, agradeço muito pela resposta.

Francisco Kümmel Alves disse...

Prezados,

Será que apenas ocorre no Brasil (como no caso do CADE) de juízes ignorarem a opinião de especialistas?

Ou isso não é possível também em casos como este, no qual argumentos expostos no filme, os quais advieram da opinião de diversos especialistas, foram indeferidos por um juiz singular.

Ademais, podemos estar diante de uma propaganda política, mas prefiro que uma questão de tamanha importância como esta seja usada para fins de politicagem do que seja ignorada.

Por fim, os EUA somente não ratificaram Kyoto devido à mudança de administração e um senado republicano. O governo Clinton, muito por causa de seu vice, foi um dos principais articuladores do tratado.