sexta-feira, 12 de outubro de 2007

A trilha do crescimento II


Gary Becker, Prêmio Nobel de Economia, afirma, no já citado artigo, que o Brasil, nos últimos 40 anos, “rodou abaixo de seu potencial”. Contudo, “A boa notícia para os brasileiros é que um olhar para o futuro permite um grau muito maior de otimismo”. Qual é o motivo?

Sustenta o autor que as empresas brasileiras têm se destacado em várias áreas, citando como exemplo, as áreas da aviação e do etanol. Ainda, “muitas outras poderão se desenvolver e aproveitar o novo ambiente internacional, embora não seja possível, de antemão, saber quais são essas vencedoras”.

O Professor da Universidade de Chicago aponta que “um dos erros do Brasil no passado, aliás, foi exatamente este: delegar a algum economista ou político a missão de dizer quais setores vão se desenvolver”. Insiste Gary Becker: “Sejamos honestos, nós simplesmente não sabemos a resposta”.

Quem sabe a resposta?

“Quem deve dizer isso é o mercado”. Por quê?

Já se falou nessa página, supra, acerca dos benefícios da inovação. A inovação é, e deve ser, imprevisível e, uma vez ocorrida, se torna compreensível. Ou seja, não se sabe qual será o próximo produto a ser lançado no mercado de software, mas, com certeza, uma vez exposto ao mercado, é passível de compreensão.

A inovação, aliada ao capital - e sendo útil -, é fonte de lucros extraordinários para o inovador e o investidor. Quem investe em inovação? Há três níveis de financiamento de inovação: relacional, privado e público. No relacional, o financiamento é proporcionado pelos três F´s, a saber, family, friends and fools. Ou seja, em um primeiro estágio, quase ninguém compreende a inovação a não ser o seu criador. Assim, só a família, os amigos ou os tolos apostam em algo sobre o qual não entendem. No segundo estágio, entram em cena os “capitalistas de risco”, que segundo Cooter, Schäfer e Timm (http://services.bepress.com/lacjls/vol1/iss1/art8/, em artigo intitulado “O problema da desconfiança recíproca”) não são família, não são amigos e, certamente, não são tolos. Financiam a inovação com base em informações privadas, vez que, nesse estágio, além do inovador, pouquíssimas pessoas compreendem a inovação. É nesse momento que ocorre a dupla (des)confiança e sua solução, qual seja, a dupla garantia: a garantia do investidor contra a eventual tomada do capital pelo inovador e abandono do desenvolvimento das inovações é o recebimento, pelo investidor, das próprias informações (inovação) fornecidas pelo inovador. Se cada um fizer a sua parte, poderão auferir lucros extraordinários, vez que estarão adquirindo vantagem competitiva no mercado. Por outro lado, caso haja quebra de contrato, aquele empreendimento fracassará, i.e., caso o investidor divulgue as informações recebidas, outras pessoas poderão desenvolver a inovação; caso o inovador utilize o capital recebido para outros fins que não o indigitado, não haverá inovação.

O terceiro estágio da produção ocorre quando os concorrentes já possuem conhecimento suficiente da inovação e, assim, a informação é pública. Nesse estágio, os lucros do inovador e de seu investidor voltam a patamares normais, vez que o mercado já se encarregou de expor outros produtos concorrentes da inovação.

Esse é o motivo pelo qual a inovação deve ser imprevisível. Os economistas e os políticos, que se baseiam em informações públicas, não conseguem prever qual setor se desenvolverá, ou, ainda, dentro de um mesmo setor da economia, qual das companhias obterá sucesso. As informações públicas fornecem o dom da compreensão da inovação. Não o de sua previsão.

Mas, então, se o Estado se baseasse em informações privadas, o problema estaria resolvido? Não. Em síntese, os políticos, aqueles que melhor se servem do Estado, não têm motivação para criar riqueza, porque não podem se apropriar da mesma. Ou melhor, podem se apropriar de propinas, mas isso é ineficiência, desutilidade. Além disso, estando as informações privadas em poder de políticos, criado está o estímulo à corrupção, ao favorecimento a amigos e à burocracia.

Nesse sentido, pertinente é indagar, com Cooter, Schäfer e Timm, será que “os políticos e as autoridades serão capazes de fazer com que a economia cresça mais rápido investindo dinheiro de outras pessoas do que os investidores privados conseguem investindo seu próprio dinheiro”?

É mais ou menos possível entender agora o motivo pelo qual Gary Becker assevera que “nós simplesmente não sabemos a resposta. Quem deve dizer isso é o mercado”?

O papel ativo que o Estado deve cumprir é assunto para postagem futura.

Um comentário:

Luciano Timm disse...

Falei pessoalmente com Gary Becker nessa semana na sala dele na Universidade de Chicago. Vou ver se consigo colocar a foto no blog. É a velha história...ministro do planejamento de longo prazo em Chicago não é um cargo admirado nem desejado...