domingo, 7 de outubro de 2007

O VELHO BRASIL VIROU PÓ

Exame (acesso público a essa parte) - 04.10.2007

"O velho Brasil virou pó*

A trajetória que vem transformando um país fechado, agrário e atrasado numa economia moderna e globalizada

Por Sérgio Ruiz Luz

Os sentimentos dos brasileiros a respeito das possibilidades do país oscilaram de forma bipolar nos últimos 40 anos. Da euforia dos tempos em que os 90 milhões em ação comemoravam o tricampeonato mundial de futebol, viam obras gigantescas de infra-estrutura brotar em vários cantos do território e surfavam a onda de uma economia que evoluía a taxas de quase 10% ao ano, seguiu-se a mais profunda das depressões, um estado econômico e de espírito que se manteve por anos e deixou cicatrizes. Foi como se a chave de desenvolvimento tivesse sido invertida para o pólo negativo. As mazelas políticas em Brasília, o crescimento pífio, as oportunidades perdidas, os recorrentes escândalos de corrupção contribuem atualmente para corroborar a tese de que a nação é um projeto que não deu certo. Por tabela, estimulam também o nascimento de uma onda de nostalgia da época em que, dizia-se, o Brasil tinha melhores escolas, serviços de bom nível e um cenário em que mesmo as grandes cidades pareciam menos hostis. "Exageramos tanto em nossos momentos de sucesso quanto nos de fracasso", afirma o cientista político Renato Janine Ribeiro, da Universidade de São Paulo. "Essa característica não nos permite ver, com clareza, quanto o Brasil mudou do final dos anos 60 para cá."
Os problemas ainda existem e são graves, assim como nossas limitações. Mas o fato é que, por qualquer ângulo que se olhe, o Brasil é um país infinitamente melhor, mais moderno e mais sofisticado do que há 40 anos. Em 1967, grande parte de nossa economia era tocada na base da enxada e da força bruta. Mais da metade da população morava no campo, vivendo de uma atividade agrícola de baixíssima produtividade. Éramos na época menos urbanizados que vizinhos de continente, como Chile e Argentina, e vivíamos de costas para o mundo, com um volume de exportações anuais semelhante ao do Senegal nos dias de hoje. Os indicadores sociais -- diferentemente do que as antigas imagens de um Rio de Janeiro embalado pela bossa nova e de uma São Paulo aristocrática podem levar a crer -- só não eram péssimos para a elite. A expectativa de vida média não ultrapassava 60 anos. As causas de morte mais comuns eram doenças infecciosas ligadas à pobreza, como tuberculose e malária. Na educação, quatro em cada dez brasileiros nos anos 60 não sabiam ler e escrever. Quase metade das crianças não tinha acesso à escola. Esse velho Brasil virou pó nas últimas décadas.
De uma nação agrária, atrasada e fechada, o país avançou o suficiente para transformar-se numa economia moderna e relevante para o mundo. Sua renda per capita mais que quadruplicou no período, o acesso à educação básica universalizou-se e o volume de vendas ao exterior cresceu de 1,6 bilhão de dólares para o patamar de 137 bilhões de dólares por ano. (É evidente que a exuberância que o mundo experimenta há alguns anos ajuda consideravelmente países como o Brasil. O comércio mundial cresce a uma taxa próxima de 5% ao ano. E, diante desse panorama, o Brasil continua a representar cerca de 1% do total das trocas internacionais.) No campo, se a imagem que representava o país no passado era a figura indolente do jeca-tatu, hoje o Brasil é reconhecido nessa área como uma das potências mundiais do agronegócio. "Nenhuma nação do mundo fez o que o Brasil realizou", diz o ex-ministro Maílson da Nóbrega, sócio da consultoria Tendências. "Vivemos vários séculos em quatro décadas." A façanha realizada nesse intervalo de tempo foi transformar a sociedade rural em industrial e de serviços. Mas foi apenas uma etapa do processo. O desafio daqui para a frente é possivelmente ainda maior, devido à velocidade acelerada do mundo: transmutar esta sociedade na qual vivemos numa economia não mais baseada em máquinas, mas em informação."
*Para conferir a reportagem completa e os gráficos apresentados ver:

Um comentário:

Renato Caovilla disse...

Conferir, ainda, na mesma edição da Revista Exame (903 - ano 41 - nº 19) artigo de GARY BECKER: "O futuro pode ser melhor", pp. 40/41, sobre o mesmo tema.