segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O peso da violência no seu bolso

O peso da violência no seu bolso
A economia corroída pelo crime
MAURO GRAEFF JÚNIOR E RODRIGO MÜZELL

No preço do remédio que o aposentado compra, do alimento que a família come e do carro que o motorista dirige, assim como na maioria dos produtos consumidos pela população, há um componente extra. É um custo que deixa rastros de prejuízo, desemprego, falência e morte: a violência. O crime entrou no balancete das empresas. Mira a indústria, o comércio e os serviços, sem discriminação, e funciona como mais um peso numa economia que enfrenta suficientes problemas de competitividade. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado à Presidência da República, mostra que esse fardo custa ao Brasil 5% do Produto Interno Bruto ao ano. Em 2004, os prejuízos causados pelo crime foram de R$ 92 bilhões. Esse dinheiro daria para estancar o déficit habitacional do país e erguer e equipar 300 mil postos de saúde.Este fenômeno mudou paradigmas. O crime deixou se ser caso somente de polícia. Passou também a pautar reuniões de negócios. A Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre intenciona apresentar um projeto ao governo estadual para abater os gastos com segurança dos impostos.- Os lojistas estão apavorados. Não só com os assaltos. É também com gastos com segurança para manter uma loja, que pode chegar a 3% do faturamento. Esse índice geralmente representa o lucro de um ano todo no varejo - calcula Vilson Noer, presidente da CDL.Investir em vigilância é colocar dinheiro fora de foco. Não há o mesmo efeito multiplicador do que contratar um funcionário para a fábrica, por exemplo, porque um segurança não vai fazer a empresa produzir mais e conquistar mercado, explica o economista Carlos Cardoso, da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado.Manter um negócio aberto requer bem mais do que visão empreendedora. Exige boa dose de sorte e persistência para não ser atropelado pelos prejuízos deixados pelos ladrões.- A gente vai trabalhando até onde der para manter esses gastos. Mas ninguém agüenta ser roubado toda hora - conta o empresário Roque Da Cas, dono da Ciamar Transportes, que teve três cargas de óleo de soja roubadas nos últimos seis meses e acumula prejuízo de R$ 50 mil. Na farmácia do empresário Gilberto Lima, no bairro Santana, na Capital, os ladrões estabeleceram o horário de funcionamento. Os ataques obrigaram a empresa a desistir de trabalhar 24 horas por dia. Agora, o expediente é das 7h30min às 22h. E às 19h30min os funcionários baixam a grade. Faça chuva ou faça frio, os clientes precisam esperar o medicamento na calçada.- E a gente ainda sofre cerca de oito assaltos por ano - conta Lima.De hoje até quinta-feira, Zero Hora revela em uma série de reportagens estas e outras histórias sobre como os valores saqueados quando uma gangue limpa o estoque de um depósito se multiplicam em prejuízo para todos. Conta os empregos perdidos quando uma loja desiste de abrir filiais acuada pela violência. Calcula o valor pago a mais num produto porque as indústrias sacrificam parte do seu lucro na contratação de segurança privada e com seguros. Mostra os reflexos no campo depois de produtores desistirem de criar gado e como isso atinge o comércio das pequenas cidades. E analisa como os impostos sonegados na venda clandestina do produto roubado ajudam a aumentar o rombo fiscal do Estado e, assim, reduzir o ritmo de crescimento da economia.

Comentários: alguma novidade para o público de law and economics...

Luciano Timm

2 comentários:

Francisco Kümmel Alves disse...

Novidade não há mesmo (até parece meio óbvio).
Com relação aos seguros destacaria que como os assaltos são constantes, o risco (incerteza mensurável) se torna tão alto que inviabiliza o contrato de seguro, tornando-o deveras oneroso, caro. Além de que, em alguns casos, a sinistralidade é tão grande que a seguradora não aceita realizar o contrato.
Assim o instrumento concebido para diluir as perdas não mais consegue alcançar seu objetivo.
Pergunto, haveria outro? Ou mais, conceberíamos outro?

Renato Caovilla disse...

Prognosticar os efeitos danosos provocados pelos comandos jurídicos faz parte da doutrina do Law and Economics: interpretar estes – comandos jurídicos – a fim de se prevenir aqueles – efeitos danosos.

No espaço público do mercado, quando o preço de um bem se eleva, os consumidores reagem consumindo menos desse bem. Ao se considerar as sanções, previstas pelas normas jurídicas, como os preços no mercado ter-se-ia que quanto maior a sanção prevista para uma conduta, menos dela se realizará.

Em outras palavras, cria-se um desestímulo à prática da conduta sancionada severamente, da mesma forma que se consome menos do bem mais caro.

O criminoso não deixa de ser um agente racional, no sentido de que toma o caminho que lhe traz mais benefícios, qual seja, o crime. O crime, em sua análise, não é um bem caro.

E o prejuízo do crime cometido não é, como visto, só da vítima. Sendo o crime "barato", caro é conviver com ele.